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Opinião: Reféns

 

Por Rodrigo Barneschi

Complete a lacuna com uma palavra:
“O palmeirense é um ___________ por natureza”.

Algumas opções: torcedor, apaixonado, fanático, otimista/pessimista, corneteiro, sofredor, exigente, aficionado, crítico, devoto, ensandecido, neurótico, bipolar, confiante/cético, intolerante, forte, guerreiro, vitorioso, maluco, vencedor, crédulo/incrédulo, determinado, empolgado, incansável, louco, doente, insistente, persistente, obsessivo, insano…

Todas podem se aplicar – e algumas centenas mais. Afinal, não há um único tipo de palmeirense, mas vários. Os adjetivos e substantivos sugeridos traduzem, de certa forma, muitas das características normalmente atribuídas ao torcedor alviverde. São atributos que podem ser associados a cada um de nós em momentos distintos.

Mas qual seria a sua palavra se fosse necessário escolher apenas uma?

Antes de responder, sugiro, por favor, que você tenha em mente o significado da palavra “natureza”:

 

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O que respondeu a criatura que temporariamente preside a Sociedade Esportiva Palmeiras?

Bom, a frase dele, em entrevista para a Folha de S.Paulo, foi a seguinte: “O palmeirense é um consumidor por natureza”.

Consumidor.

Para o mandatário de plantão, a natureza do palmeirense tem pouco a ver com sua atitude em uma arquibancada – ou em qualquer outro lugar. Segundo ele, a natureza do palmeirense não diz respeito a caráter, temperamento, comportamento ou o que quer que seja. Para o rentista que enxerga os frequentadores do novo Palestra não como torcedores, mas como cifrões, o palmeirense pode ser definido não por algo relacionado ao hábito de “torcer”, mas pelo ato de “consumir”.

É uma frase que diz muita coisa nesses tempos em que o torcedor palmeirense é extorquido na hora de entrar em sua própria casa.

Alguém aí haverá de dizer que estou dando muito peso a uma simples declaração, que estou tomando o todo pela parte, que estou fazendo uma interpretação maldosa da terminologia empregada. Sinto dizer, mas está longe de ser isso. Porque o senhor presidente do clube segue, dia após dia, contaminando o Campeão do Século XX, outrora conhecido pelo seu caráter inclusivo, com uma visão excludente e distorcida da realidade. Sequer os números, estes que pretensamente embasam suas demonstrações públicas de esquizofrenia, param em pé, como se pode depreender da mentira por trás dos 6.000 lugares perdidos, das muitas contestações ao obsceno preço dos ingressos e da análise sobre as despesas do novo estádio.

Sob Nobre, aquele que tem obsessão por ser refém (da construtora) ou não ser refém (do centenário, aquele que foi arruinado por seus erros), quem se torna refém é o palmeirense.

Tornamo-nos, todos, inclusive os asseclas, reféns de uma mentalidade elitista, altamente financista e que atribui valor ao palmeirense não pelo apoio que presta ao clube, mas pelo dinheiro de que dispõe para consumir. Tornamo-nos reféns de um presidente que, desconectado da realidade, enxerga o nosso estádio como seu brinquedinho particular – e, como tal, quer definir quem ele pode ou não pode brincar. Tornamo-nos reféns de uma política de precificação doentia, que limita a capacidade de público do novo Palestra, segrega parte substancial da torcida e tenta excluir a torcida visitante pelo bolso.

Paulo Nobre, como se vê, não entende nada de futebol. Nem do que é ser torcedor. Nem de Palmeiras. E nem mesmo de números, pois tropeça neles a cada nova declaração.

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