Os 16 do Nobre

 

Por Rodrigo Barneschi

O discurso é bem ensaiado. Tanto que se adapta aos números e às circunstâncias com extrema facilidade:

“Não governo para dois mil que vão aos jogos do Palmeiras fora de casa. Governo para 16 milhões”.

Paulo Nobre, tentando justificar a obsessão doentia por torcida única em clássicos – e também em outros jogos

“Eu administro o Palmeiras para 16 milhões de pessoas. Não só para 30 mil, 40 mil que vem ao estádio”.

Paulo Nobre, irônico, abusando das habituais falácias e fazendo pouco caso dos 40 mil que pagaram valores extorsivos para ver o Palmeiras disputar a primeira final em sua nova casa e mais ainda daqueles que foram alijados do estádio

Houve o tempo do Nobre choramingando pela falta de dinheiro em caixa. Também o tempo do Nobre que não queria ser refém do centenário – e que quase arrastou clube e torcida para o inferno do rebaixamento. Veio, depois, o Nobre “capacho do MP” – e este continuará na ativa até que seja feita a sua vontade. Este mesmo apostava na tática de maltratar os números para criar falácias travestidas de argumentos. E há agora, na iminência de um título, o Nobre prepotente, que joga aos leões (ou aos peixes, como quiserem) o seu torcedor.

Não, Nobre não governa para os, segundo ele, “dois mil” que vão aos jogos do Palmeiras fora de casa. Tampouco para os “30 mil, 40 mil que vem ao estádio”. Menos ainda para os que não podem arcar com a extorsão nossa de cada semana no novo Palestra. Nobre governa para seu próprio ego e, no máximo, para sua corja de aduladores. Nobre governa para seu irrefreável apetite por dinheiro e, com boa vontade, para uma meia dúzia de asseclas.

Meia dúzia? Melhor seria dizer 16. Os mesmos 16 que apareceram ao lado do mandatário alviverde em um confortável camarote no estádio de nosso maior rival, em foto que circulou livremente pelas redes sociais. Não, não vou aqui publicar a imagem em questão, mas os 16 que ali aparecem, ao lado de um Nobre com a língua de fora, são os cúmplices que dizem amém para todas as atrocidades que vêm  sendo cometidas por esse sujeito contra a Sociedade Esportiva Palmeiras e contra sua gente.

Por sinal, cabe repetir que a ida de 1.886 representantes de verde ao estádio de Itaquera ocorreu contra a vontade de Paulo Nobre. Só fomos até lá porque avalizados por Mário Gobbi, presidente do SCCP até a véspera do dérbi ocorrido em nosso estádio em fevereiro. Foi Gobbi que, ao bater o pé em entrevista coletiva na antevéspera do jogo, garantiu a presença de 1.500 visitantes no nosso estádio e, de quebra, assegurou que pudéssemos ir a Itaquera dois meses depois.

Se dependesse de Nobre, o Palmeiras não teria tido sequer um torcedor no Itaquerão. Nossos atletas teriam entrado em campo diante de 40 mil inimigos, sem qualquer respiro em meio a uma pressão que viria de todos os lados. Não se ouviria um grito sequer de incentivo às nossas cores, os jogadores não teriam para onde correr na hora da comemoração, não haveria nada – a não ser uma pequena corja reunida em um camarote escondido – a representar 16 milhões em meio à massa adversária. E nada disso aqui teria acontecido.

Fomos, 1.886, até território inimigo de trem e caminhando 8km na ida e na volta, sob chuva. E faríamos tudo de novo, porque é nosso direito e nosso dever. Mas, no que dependesse de Nobre e de seus asseclas, o Palmeiras seria representado no Itaquerão – e em outras canchas – por aquele pequeno grupelho que tomou o poder para achacar a torcida semana após semana.

Esqueçam os 16 milhões do discurso falacioso.

O ego de Nobre enxerga toda essa gente como cifrões.

Daí então que, na base do “eu acho”, “eu penso”, “eu acredito” e “eu quero”, responde às demandas da torcida com ingressos a obscenos R$ 88 para ver um jogo no telão, ignora as manifestações populares e perpetua uma sequência de atentados contra o palmeirense: como se não bastasse o ingresso a R$ 210 para a finalíssima (e eu venho fazendo esse alerta há meses), Nobre coloca em risco os palmeirenses que terão de ir comprar os bilhetes logo na casa do rival. Uma temeridade sem tamanho.

Mas não há de ser nada; o que importa, para Nobre, é colecionar recordes de arrecadação, vomitar discursos falaciosos e prepotentes para refutar manifestações em contrário e, claro, encher o camarote com seus aduladores.

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Ao zelador – e ele vai entender:

Enquanto uns trabalham e cuidam de suas vidas, há os aduladores que, revestidos de pequenos poderes, se sentem no direito de proclamar vantagem a partir de coisas ainda menores.

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Pouca gente viu, mas…

… faltava ainda uma hora para o jogo do último domingo quando um representante do Choque entrou no gramado do nosso estádio. Vestia a mesma farda que vestiam os bravos, valorosos e destemidos homens que massacraram a nossa torcida no último dia 8 de fevereiro. Era também a mesma farda dos bravos, valorosos e destemidos homens que agrediram um dos nossos no Itaquerão, um domingo antes. Sua imagem apareceu no telão. Ele segurava um diploma ou algo que o valha. O sistema de som não funcionou bem e não foi possível entender exatamente o que ocorria, mas fato é que houve uma homenagem a um homem do Choque (que, imagino, representava a instituição) dentro da nossa casa, diante dos olhos de muitos que foram massacrados no dia 8 de fevereiro. Foi quase um salvo-conduto para que os bravos, valorosos e destemidos homens do Choque descessem a porrada nos nossos.

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