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Quando menos é mais

 

Por Vicente Criscio 

A semana que passou teve uma partida da Copa do Brasil onde o Palmeiras ganhou do Sampaio Correa por 5×1.

Captura de Tela 2015-05-17 às 5.28.56 PM
A novidade foi a venda do ingresso. A diretoria da SEP decidiu que era “mais barato” fechar o anel superior e vender 25 mil ingressos.

A renda está aí ao lado. Com os ingressos mais baixos a renda foi de R$ 921 mil e líquido pro bolso do Palmeiras ficou R$ 509 mil (os dados são do borderô do jogo).

Com ingressos um pouco mais baratos que a média do Campeonato Paulista (ticket médio de R$ 37,71) e por ser um jogo “aparentemente” com pouco atrativo, a diretoria justificou que se abrisse o estádio todo ia “custar mais caro”.

Depois publicou na mídia esportiva que o Palmeiras fez um bom negócio.

Logo muita gente saiu divulgando que o toque de midas do Presidente acertou de novo. Mesmo sem analisar com profundidade o tema.

Será?

Acertou nada!

Como sempre perdemos oportunidades:

1. de trazer mais torcedor e proporcionar ao nosso “cliente” (já que o pessoal gosta dessa expressão) a possibilidade de ter uma experiência no Allianz;

2. de ganhar mais dinheiro (vou mostrar aí embaixo);

3. de não acreditar no nosso torcedor.

Vamos lá. A não ser que estejamos na contra-mão da história, da contabilidade, da escalabilidade, um ativo se rentabiliza quanto MAIOR o seu uso. Há exceções? Sim. Mas nem vou me alongar aqui. Não é o caso do Allianz Parque (pelo menos analisando-se os números públicos; aqui não tem número confidencial).

As despesas de uma partida de futebol e que estão disponíveis nos sites públicos (o borderô da CBF no caso de partida em competição nacional) mostra claramente quais são os custos. Eu simplifiquei para facilitar o entendimento. Mas basicamente um jogo desse tipo tem três custos:

1. Da federação e impostos, que geralmente são variáveis (ou seja, um percentual da renda), como INSS, seguros e outros;

2. Fixos operacionais, como ambulâncias, antidoping, arbitragem, catracas (surpreendente no caso do Allianz, já que a WTorre tem um sistema desses mas o Palmeiras prefere alugar), … ;

3. Variáveis: são os custos – como diz o nome – que variam em função do tamanho do espetáculo; impressão de ingressos, policiamento – que varia pouco, mas varia em função do público pagante – e uma inexplicável despesa chamada DIVERSAS.

Sem entrar no mérito se essas despesas podem ser menor. Peguei as mesmas despesas fixas, apliquei as despesas variáveis em função de um jogo que poderia ter uns 35 mil pagantes, e baixei o preço do ingresso.

O que aconteceu? Na simulação, a rentabilidade foi menor mas sobrou mais dinheiro no caixa. Pouco, é verdade. R$ 17 mil a mais. Mas também fui bastante conservador no crescimento das despesas diversas (já que a gente tem pouca informação do que tem aí dentro; e antes que alguém diga que é TUDO WTorre, já aviso: não é!; a WT tem aí dentro cerca e R$ 80 mil principalmente por conta de uso de gerador e eletricidade).

Aí veja o resultado da simulação:

Captura de Tela 2015-05-17 às 5.54.37 PM

Simulação

  • Reduzir ticket médio em 17% (de R$ 37,71 para R$ 31,32);
  • Trazer mais ~4.200 torcedores NAO AVANTI;
  • Trazer mais ~5.400 torcedore AVANTI;
  • Abrir anel superior;
  • Manter custo unitário de ingressos e gastos fixos;
  • Subir despesas Diversas para R$ 300 mil (???) e gastos variáveis proporcionalmente;
  • Ganho estimado de renda líquida de R$ 17 mil (costumo chamar isso de cash margem, ou seja, a margem em dinheiro que deixaria no caixa mesmo cobrando ingresso mais barato);
  • Não considera ganhos de vendas de camisetas e alimentação.

Claro, o resultado é melhor porque aumentei em 9 mil torcedores. É muito? Talvez não, considerando nosso histórico recente. Principalmente com uma precificação mais correta. Jogando 3a feira à noite, rodada 2 da Copa do Brasil, devíamos nos preocupar em ter um valor de ingresso mínimo prá encher a casa e NAO perder dinheiro. Talvez com um preço mais popular teríamos mais que os 34 mil que simulei.

Há ainda dois elementos que não consigo analisar, que pode impactar prá cima ou prá baixo a simulação:

i. o efeito “desconto” do Avanti é uma caixinha preta, logo não sabemos se essa receita apontada aí de torcedores AVANTI é uma receita integral ou gerencial; tema prá outros posts… guarde num estacionamento;

ii. as tais Despesas Diversas, que não sabemos o que tem lá dentro; na simulação aumentei 50% o valor dessa despesa; fui conservador. (e novamente, antes que alguém pense que estou trazendo informação de dentro do clube, essa informação está ABERTA nos borderôs à disposição de qualquer leitor mais curioso).

Na boa, sem politizar a discussão, a reflexão que deixo aqui é a seguinte: NESSE CASO, do jogo PALMEIRAS x SAMPAIO CORREA, a Diretoria ERROU. Se tivesse analisado por um par de horas (foi o tempo que levei prá baixar as informações do site) veria que poderia baixar o ingresso, apostar que 35 mil torcedores viriam para o Allianz, e teria estádio mais bonito, com mais gente, aproximando mais ainda o torcedor do time, e – surpresa surpresa – ganhando mais.

Mas prá isso precisava arriscar. Nesse caso, menos preço e menos conservadorismo seria mais torcedor e mais receita.

Concordam? Tô errado? Fez bem a Diretoria em fechar as cadeiras superiores?

Saudações Alviverdes!

***

NOTA DO EDITOR: O 3VV CARACTERIZA-SE PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO E PELA DIVERSIDADE DE OPINIÕES.
O POST ACIMA EXPRESSA EXCLUSIVAMENTE A ANÁLISE E VISÃO DO AUTOR SOBRE O TEMA.
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8 respostas em “Quando menos é mais”

Neste jogo, especificamente, não acho que a diretoria errou, porque os ingressos foram todos vendidos, mas não antecipadamente, pois até a hora do jogo ainda restavam ingressos. Assim, no máximo, seriam vendidos uns 3.000 a mais e culminariam com custos mais elevados. Entretanto, a redução do ingresso e uma solução para a torcida adversária (pq há muita perda de lugares com o isolamento) é necessária

Não é preciso fazer conta para saber que errou.
Existe um número enorme de Palmeirenses (eu incluso) que ainda não conseguiram conhecer a nova casa por questões financeiras. Preciso levar 2 crianças e, como o ingresso barato se esgota rápido, estamos falando de uns R$ 300,00 fora um eventual sorvete, estacionamento e coisa e tal.
O objetivo deveria ser, SEMPRE, lotar o estádio. É simples.
Quem viesse jogar contra nós deveria saber que vai encontrar SEMPRE estádio lotado.
E o preço dos ingressos deve ser pensado para isso.
Se o pensamento financeiro vier antes do esportivo, em breve vão ter que fazer promoção como os Bambis.

vou enviar e-mail, sem foto do resultado do jogo do sub 11 de sabado ok

Eu concordo, você não esta errado e diretoria errou em fechar o anel superior, ainda mais com o preço do ingresso estipulado para aquele jogo. A pergunta que fica é (e já sabemos a resposta): Eles fazem essa comparação/estudo que você fez?

Ainda acho que alguma economias não se aplicam ao futebol. Temos que incentivar a ida do torcedor ao estádio e reduzindo a capacidade do mesmo de receber público não me parece a melhor opção. Mas na boa, acho que estamos perdendo o foco, que é discutir o que realmente interessa: o futebol, que convenhamos não está convencendo ninguém…….

Isso seria contando com os 9.000 a mais. Se não lotasse poderia ter prejuizo (creio). Penso que preferiran o certo do que o duvidoso. Se formos pensar só no $$$ creio ser uma decisão mais correta, pelo atrativo e horário. Talvez na proxima fase ja de pra fazer outra experiência com preço igual e superior liberada e assim ir acertando a dosagem correta do preço. Repito, pensando exclusivamente na questão financeira.

Vicente, eu não sei pq mas meu amigo, corintiano, em um certo dia encontrou o Andrés Sánchez em um evento esportivo, ele fez o seguinte questionamento: – Pq vocês preferem vender 10 mil ingressos à 100 reais e ter uma ocupação média de 50% do que baixar o preço, ter ocupação de quase 100% e mais pessoas para incentivar? A resposta dele foi que para o Clube é mais vantagem lucrar mais com menos, segundo ele é menos trabalhoso e por isso o praticam! Sinceridade, eu não sei pq, seria limpeza? Mais gente pra manter disciplina?

Muito bom Criscio. Com pouca informação disponível, desmontou os argumentos do pessoalzinho que só pensa em grana mas não sabe fazer conta (teve gente por aí que disse que o custo aumentaria R$500k pelo simples fato de abrir a superior: pegaram o custo da casa cheia, a preço cheio, como se fosse tudo fixo). O grande benefício mesmo era intangível: uma grande oportunidade para que torcedores q não podem pagar muito conhecessem o novo estádio, aproximando a torcida. A meu ver, esse é o objetivo maior nesses casos, ainda que houvesse prejuízo financeiro pequeno. Mais uma oportunidade perdida….

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