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Opinião: a reforma e a separação

 

Por Vicente Criscio

Em minha última coluna prometi falar da reforma estatutária.

Em andamento, um grupo de cerca de 20 conselheiros iniciaram ainda em 2013 uma comissão para mudar o estatuto palmeirense.

A demanda do torcedor mais politizado bem como de alguns sócios e poucos conselheiros é pelo voto do sócio torcedor e pela “separação” do clube social.

A comissão que lá está depois de mais de dois anos trabalhando, não conseguiu ainda produzir uma proposta para o debate aberto entre aqueles preocupados com o tema.

O que se sabe até aqui – as informações que tenho são poucas afinal o tema é tratado de forma reservada – dão conta que a discussão para o voto do sócio torcedor patina (perguntas como: quanto vai pagar? Todos terão direito? Direito a quê? A voto? a partir de quanto tempo de associado? e o Avanti?). E a separação do clube social em relação ao futebol é simplesmente uma conversa teórica sobre gestão financeira e de resultados.

O que está pegando – ainda de acordo com pessoas de dentro da comissão – é a discussão sobre as atribuições do COF e o mandato de três anos para o Presidente. Aí fica a dúvida: com reeleição? Sem reeleição?

Existe ainda o temor de alguns e desejo de outros que com um novo estatuto, se aprovado até o próximo ano, o Presidente Paulo Nobre abriria a possibilidade de se reeleger e reeleger mais uma vez. Teoricamente teria pela frente a possibilidade de mais seis anos de mandato, somados aos quatro que vai cumprir. O Presidente não se manifestou abertamente sobre isso e por enquanto essa possibilidade é especulação. Se ele topar estará se juntando a outros como Mustafá Contursi, Juvenal Juvêncio, Alberto Duailibi, Marcelo Teixeira, e outros tantos presidentes de grandes clubes brasileiros que um dia usaram de artifícios semelhantes para alongar sua permanência no poder.

Mas esse não é o ponto de hoje. Em minha opinião o ponto mais relevante de uma reforma estatutária HOJE não deveria ser quantos anos de mandato, ou possibilidade de reeleição, nem mesmo o papel do COF.

Reformar o estatuto prá quê?

O projeto que muda tudo é a separação do futebol, definição de um modelo de gestão profissional (e aí para os dois casos, futebol e clube), colocação dos políticos no seu devido lugar, governança (onde não teríamos como “diretores” parente, namorada, papagaio, sogra, só porque votam), transparência da gestão (seja nos gastos hoje exorbitantes do clube social, seja nas compras pouco claras dos serviços de arena que explodiram os custos em dias de jogos).

Especificamente quando falo em Futebol e Clube Social, estou dizendo que cada negócio tem (e hoje vamos nos ater a apenas esse exemplo) um modelo de receitas distinto.

 

Modelo de receitas Futebol x Clube

Futebol Clube social
Direitos de tv Arrecadação com os sócios
Bilheteria Arrecadação extra nos departamentos
Publicidade Restaurante, lanchonete (exploração ou operação)
Material esportivo Publicidade interna
Marketing Outras formas de receitas
Merchandising
Arena
Outras formas de receitas

 

Aqui se percebe o óbvio: a diferença das fontes de receitas são completas. Outra: os volumes que estamos falando (de propósito por enquanto deixo fora do tema os esportes de alto rendimento como basquete, futsal, e outros).

No futebol, as receitas podem ser qualquer número. O céu é o limite. Até onde vai crescer nossas receitas (nossas, do futebol brasileiro)? Tanto que no futebol com competência e criatividade – claro e desde que o time seja um dos grandes do futebol brasileiro – pode-se discutir qualquer nível de receita compatível com o futebol mundial (o benchmark é o Real Madrid com 550 milhões de euros). O importante é definir o COMO chegar lá. Por isso que não é apenas um caso de “austeridade financeira” mas sim quais as estradas vou construir para crescer receitas, quais as possibilidades, quais os modelos, versus a despesa, que sempre deverá estar em equilíbrio. Lembrando que time forte traz mais receita e todo o ciclo virtuoso que conhecemos.

E o clube social? Sua capacidade de geração de receitas esbarra no limite de quantos sócios posso ter versus qual o valor máximo que estão dispostos a pagar, desde que compense os serviços oferecidos. Não tem amor, não tem paixão, não tem emoção. É uma relação serviço oferecido x contribuição.

Claro, sempre pode-se e deve-se buscar outras oportunidades de receitas (marketing interno, publicidade, canais de mídia, parcerias, uso da base de associados para marketing com parceiros, etc). Mas para isso não pode ter mais de 100 diretores com carteirinha e nenhum com capacidade de gerar um centavo de receita para o clube ALÉM das taxas já cobradas.

E quanto acontece da conta estourar? Quando a despesa do clube social é maior que a receita? É como um condomínio: vai lá e chama cada condômino para colocar um dinheiro. Depois os condôminos decidem se o síndico é competente prá tocar o condomínio ou não. É assim que funciona.

Os dois negócios juntos com modelos tão distintos de receitas geram ainda uma grande deformação: a influência do clube social na gestão do futebol, bem como a influência da gestão do futebol no clube social. Aí vira o samba do afro descendente com distúrbios neurológicos.

É o caso atual da taxa para equipar os prédios do clube social, onde o associado diz que esse não é um problema dele, pois os prédios vieram com a reforma da arena em um negócio onde o foco era o futebol, e a diretoria diz que o associado tem que pagar a conta.

Resumindo, seja por um tema de gestão (mais de 100 diretores, 300 conselheiros), todos eles dando palpites no futebol e no clube social ao mesmo tempo, seja por um tema de geração de receitas (diferentes competências, modelos e públicos para se buscar a grana), seja por um tema de governança (um é prá dentro, voltado a 12 mil sócios, na maioria do bairro, onde 30% nem palmeirense é e não está preocupado com o jogo deste domingo; o outro é de 15 MM de fanáticos e apaixonados, que gastam, compram, torcem, choram, acompanham, e estão espalhados da Turiassu a Porto Velho, de Londres a Campinas), não dá prá ter a mesma cabeça pensando, mesma estrutura, e principalmente as mesmas práticas de governança comum para estas duas entidades tão distintas.

Por isso, volto ao meu samba de uma nota só: tem que separar.

Mas não é só por isso. Essa é só a ponta do iceberg.

Vem mais por aí…. e hoje tem jogo.

Saudações Alviverdes!

24 respostas em “Opinião: a reforma e a separação”

Gostaria de saber para mudar o estatuto so depende da assinatura do presidente?
Os comentários colocam ele como culpado por não ter acontecido até agora..
Alguém sabe?

Caro Vicente, pergunta: qual clube de futebol brasileiro, do alto escalão eu digo, que tem o social separado do futebol? Abs

Como sempre o CRISCIO foi cirurgico na sua abordagem. Primeiro porque conhece as entranhas do PALMEIRAS como poucos e quem esta dentro dela. Segundo porque ele SABE como fazer a separaçao do clube social do futebol. O VICENTE tem projeto(s) que contempla(m) essas facetas. Pensando no futuro ( que seja promissor) não vejo outra saida que não seja essa. Para isso é preciso que se tenha PROJETO(S) e PESSOAS que saibam como fazer. E o CRISCIO sabe.

Eu Claudio Longo só posso apenas agradecer a voce Vicente Criscio, pela materia , que apenas esclarece, de forma inteligente e clara, o que é necessario, sendo que hoje forças não tão ocultas, estão impedido , tais realizações , ja que inumeros “socios´´ e “diretores´´, que mantem a politica que ano que vem completa 40 anos, estão orbitando pelo poder sem terem a minima noção do que podem fazer, a SEPARAÇÃO , e o primeiro passo, mas a CONSCIENTIZAÇÃO , É UM FATOR VITAL, lembrando que temos sempre muitos fatores a serem avaliados, mas ha muito poucas cabeças que possam solucionar!

Os caras deveriam esperar a arbitragem, antes de sair colhendo assinaturas com associados torcedores de outros times rivais, nesse fardo chamado clube social!

Vicente, hoje vemos o Palmeiras buscando novamente as primeiras posicoes na tabela e voltando a ser protagonista dentro de campo, ótimo, excelente, parabéns Paulo Nobre. Mas, eu gostaria de ver isso todo ano e para isso acontecer, a grande missão dessa Diretoria atual é mudar o estatuto e separar o futebol do clube social. Eu penso que essa separaçao é UNICA maneira de garantir que o Palmeiras volte a ser grande em todos os campeonatos e não só nesse. O momento é de alegria e esperança, mas os nomes e sobrenomes de quem nos levou para o buraco continuam rondando o poder no Palmeiras, na oposição e alguns ainda fazem parte dessa diretoria atual. Tomara que o PN cumpra sua promessa e mude de vez esse estatuto. Acho que vem um título ainda esse ano para a gente, mas o maior presente que nos poderiamos ganhar é termos um clube modernizado e preparado para ser o protagonista das Américas nos proximos 20 anos.

Gostei das explanacoes do Criscio. O associado e o torcedor sao publicos ou consumidores distintos e devem buscar e ter receitas diferentes, da mesma forma que buscam prazeres ou comodidades diferentes. Diante do texto é passível de aplicacao a separacao das receitas e despesas. Também acho que o mandato deve ser de 03 anos.
Vitória hoje (Palmeiras 3×1 Vasco: Leandro Pereira, Dudu e G. Jesus (se entrar) (ou R. Marques)

Texto excelente caro V. Criscio, a separação do futebol em relação ao clube social é de extrema importância que o Palmeiras teria daqui pra frente, cada um no seus devidos lugares, porque o futebol é coisa séria e não há espaço para aventureiros e muito menos amadores. Na minha opinião o sócio torcedor tem que ter o direito de votar para presidente, mas também tem que ter o direito de se candidatar ao conselho deliberativo e ao COF, também o sócio torcedor junto com o sócio patrimonial deveria ter pelo menos dois anos de carência para se candidatar ao conselho. Outro ponto importante é que o COF deveria ser mais técnico e não sendo um órgão que quer decidir mais que o C.D e A.G. . E mais, tanto os departamentos de futebol e o clube social tem que ser auto sustentáveis. Na Reforma Estatutária tem que derrubar esse “filtro” para as candidaturas para a presidência e eliminar as eleições para vitalício.

a chapecoense venceu o fluminense. Ou seja, vitória nossa hoje, nos coloca em terceiro lugar, babando atrás do curtintia e do galo (além deste, o outro que tem ELENCO é o inter). Se virarmos o turno em primeiro segura, pois a torcida ta doida.

Texto brilhante, coeso e repleto de argumentos. Naturalmente vão aparecer os guardiões do “agora é hora de apoiar o time, deixa isso pra depois”, mas é por causa desse “deixa pra depois” que não ganhamos um Campeonato Brasileiro há 21 anos, isso apenas para ficar absolutamente no superficial. Meu grande medo nessa “reforma estatutária” do jeito que ela está é que sirva apenas para o óbvio: perpetuação no poder do atual mandatário, que transformará o Palmeiras no clube do “Riquinho e sua turma”. E pra não dizer que não falei das flores, esta rodada até agora está perfeita: uma vitória diante de um dos piores times do campeonato nos dará o terceiro lugar na tabela. Considerando que o Galo seja hoje o melhor time do país mas que em algum momento enfrentará queda de rendimento, que o SCCP já atue no seu limite técnico (mas não no limite de ajuda do consórcio CBF/Globo/STJD) e que o Palmeiras ainda tenha muito a evoluir (se MO “descobrir” um meia articulador no elenco, já que parece que não virá ninguém até o final do ano, melhor ainda), o segundo turno deste campeonato promete fortes emoções, bem longe daquelas vividas em 2014.

Com um meia armador seria mais fácil brigar pelo
título, mas não podemos esquecer que o Cruzeiro
foi bicampeão brasileiro sem esse jogador.

A separação não é um samba de uma nota só, é um Hino para ser cantado pela nação Palmeirense.

Muito…rs 1 – Não é proibido dizer samba do criolo doido Vicente…, isso não é injuria racial. Brincadeiras a parte, Este é um post que venho te cobrando faz tempo. Obviamente mostra aos menos avisados, mais distantes e que falam que tem que separar porque tem que separar mas não falam como, que será árdua a luta. Eu ia responder no post anterior, mas este é brilhante mais uma vez. Só quem conhece a política interna do clube sabe o quanto a tarefa será dificil. Eu, como sócio do clube, sócio torcedor e torcedor do time (viu renato DF e harley) tenho certeza que essa separação será benéfica, mas também tenho certeza que vai demorar. Discordo veementemente de ter que pagar taxa extra para cobrir prédio inacabado. E aqui NÃO se fala em falta de equipamentos ou sofá, e SIM, problemas estruturais( pelo que me falaram faltam azulejos em banheiros) aqui, deram exemplo de compra de apartamento, pois bem alguém aqui quando compra apartamento tem que colocar azulejos no banheiro? A mensalidade do clube não pode ser alta, temos um estádio na área social, nosso caso é sui generis, o clube não nos oferece a estrutura de outros grandes clubes da capital (justamente por não terem um estádio na sua área social) e com a taxa, vamos pagar quase o que eles oferecem aos seus associados. Ai entra a gestão profissional, mas ai vamos voltar a casa 1, quem conhece o clube sabe que o diretor de não sei o que é parente do fulano que etc etc etc. Essa conversa vai longe.

Victor nunca me passou pela cabeça de achar que você não é verde da raiz do cabelo à unha encravada. rsrsr. Estou distante. Sei o quanto é difícil esta “separação”. Só tenho uma visão simplista: o clube Social tem um Presidente (espécie de rainha da Inglaterra) e nomeia um 1º ministro que dirigirá o futebol. Um é nobre (sem trocadilho com o atual) e o outro manda. Como disse: estou longe das “alamedas” e temos muito pano para mangas.

Renato, sem stress amigo, o negócio não é tão fácil quanto se imagina. Embora o post (elucidativo) tenha sido simples (não confundir), o seu conteúdo não o é. O Vicente deve escrever mais um monte deles sobre o assunto. E eu não sou mais palmeirense que ninguém aqui, rs.

Victor.
Então os sócios tem que cobrar o antigo presidente quando da assinatura do contrato.
Pq como você disse a questão não é só os móveis, algo foi estipulado no contrato e isso deve ser cobrado.
Se a questão for estrutural concordo que o aumento da taxa é ilegal, pois isso é responsabilidade da W.TORRE, agora caso seja a mobília do imóvel já acho que quem deve arcar é os sócios, pois aquilo entra no patrimônio do clube, que beneficia os sócios.

João, a pergunta que andei fazendo é: Se alguém deu o aval, o ok, a concordância (o nome que você quiser) que a obra estava pronta, esse ‘alguém” assinou um termo correto. Primeiro é que se assinou, em tese, sabia o que estava fazendo, (sou advogado e não engenheiro/arquiteto, para saber se determinada obra esta em ordem ou não( se bem que tem coisa que podemos dar palpite), ai das duas uma: ou é incompetente, pois concordou com algo que não estava terminado, ou… são 19 milhões, quem conhece os prédios sabe que nem se quiser da pra gastar isso( já se tem os aparelhos de musculação, esteiras, tatames…) Mesmo que fosse para comprar mobiliá para os esportes estaria caro demais.

Então Sbrighi, o que você defende nesta questão? Você diz que o clube não pode cobrar mensalidade cara porque não tem a mesma qualidade de outros clubes. Eu entendo que é absolutamente injusto pegar 1 centavo que seja arrecadado com o futebol e investir no social. Entendo que isso é ESTELIONATO com o torcedor, maior patrimônio do clube. Seja claro: você defende mensalidade baixa e suplementação de recursos com a arrecadação da Crefisa, Globo, Allianz Parque? Eu entendo que o clube social deve ser administrado como um condomínio. Que os sócios arquem com todas as despesas em rateio. Se não houver sócios em número suficiente para este rateio, que se encerrem as atividades do clube social. Para 17.988.000 torcedores, não fará falta nenhuma.

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