Opinião: O torcedor como um mero financista

 

Por Felipe Giocondo

Já disse aqui em outras oportunidades – e até peço desculpas pela recorrência ao tema, mas continua (infelizmente) sendo atual – que o Palmeiras, assim como todos os outros clubes com torcidas verdadeiramente apaixonadas, devem mudar a relação com seu torcedor urgentemente. Deve enxergá-lo como parte de um processo em busca de títulos, e não apenas um meio. Afinal, os financistas seguirão sempre o dinheiro (ou os títulos) e os torcedores, ao contrário, não. São extremamente leais ao seu clube.

E porque digo isto? Sábado passado, durante o lançamento do busto de São Marcos (festa tímida e pequena para a magnitude da data, mas enfim), um torcedor palmeirense, sócio Avanti e do clube social e que reside bem longe de São Paulo, aproximou-se do presidente Paulo Nobre e fez uma cobrança. Disse ele, mais ou menos nestas palavras:

“Presidente, contribuo com o clube de todas as formas possíveis, mas como moro em outro estado, só consigo vir a São Paulo em poucas oportunidades no ano. Acredito que o Avanti deveria olhar mais os torcedores de fora da cidade, porque apenas o benefício do desconto nos ingressos não justifica que muitos continuem a pagar mensalmente. É preciso ampliar o Avanti e oferecer outras coisas, olhar com mais atenção pra quem é torcedor mesmo estando longe”.

O presidente, cordialmente – ressalte-se – agradeceu o empenho deste torcedor em específico e o lembrou que o Avanti traz outros benefícios em diversas localidades, como descontos em supermercados e lojas. E que, além de tudo, ele estava ajudando a formar um time forte para poder ser campeão sempre.

Vamos para nossa reflexão, agora. Será que é isso que um torcedor, seja ele palmeirense ou não, espera de seu clube de coração quando se dispõe a colaborar na causa? Será que tudo se resume a uma questão financeira, a uma contrapartida monetária? Será mesmo que os torcedores se associam aos programas de sócio para terem descontos em estabelecimentos ou isso é apenas uma boa consequência de um projeto que os aproxima do clube?

Tenho uma visão extremamente particular do tema. O torcedor de futebol, antes de tudo, quer ter a sensação de pertencimento. Não importa onde esteja, a quantas partidas consegue ir no ano ou se é organizado ou não. O palmeirense quer participar de tudo, mas quer também ser visto, valorizado e reconhecido por todo esse esforço. Afinal, sabemos todos, ser palmeirense nos últimos anos tem sido um fardo pesadíssimo a se carregar.

Quais seriam então, as formas para aproximar os torcedores? Não há uma receita pronta, e o Palmeiras deveria criar seu próprio modelo. Já temos uma estrutura de cônsules pelos estados, mas infelizmente ela é descolada da realidade atual, já que é vinculada ao clube social, não ao Avanti. Podemos criar eventos pelo país, franquias de negócios mais enxutas, patrocinadores locais, uma série de ações. Mais de 55% da nossa torcida está além do nosso Estado e mais de 75% está fora da Grande São Paulo. Há um contingente ávido por ajudar, mas também ser visto, lá do lado de fora dos muros da Pompéia. Mas não adianta nada criarmos ações que não estejam vinculadas ao nosso DNA e ao reconhecimento sincero de todos aqueles que torcem pelo Palmeiras. É preciso reinventar esse olhar para a torcida e, assim, tomar a liderança no futebol nacional com a vanguarda de outros tempos.

É preciso olhar mais a alma do palmeirense e menos o tamanho do seu bolso.

Avanti Palmeiras!

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“FELIPE GIOCONDO LIDEROU O GRUPO QUE ESTUDOU E PROPÔS A AMPLA REFORMULAÇÃO NO AVANTI NO COMEÇO DA GESTÃO PAULO NOBRE. DALI SAÍRAM AS MODIFICAÇÕES QUE PERMITIRAM QUE O PROGRAMA PULASSE DOS 8 MIL SÓCIOS PARA OS NÚMEROS DE HOJE. ENTRE AS SUGESTÕES DO GRUPO POSTAS EM PRÁTICA ESTÃO O RATING, CLUBE DE VANTAGENS E OS PLANOS PARA DEPENDENTES. COLABOROU ATÉ 2014, QUANDO PEDIU O DESLIGAMENTO DA ENTÃO DIRETORIA”.