Opinião: qual a Novalgina prá essa febre?

 

Por V. Criscio

Nas últimas semanas me omiti em colocar essa coluna no ar. Estávamos no meio de jogos importantes do Paulista e da Libertadores e não seria construtivo emitir qualquer opinião naquele momento. Prá compensar, o texto abaixo é longo. E tem o único objetivo de mostrar uma visão crítica sobre o atual  status do Palmeiras.

Após o fim prematuro da participação da Libertadores e da eliminação contra o Santos na Vila, um pequeno retrospecto deste quase primeiro semestre é obrigatório.

Iniciamos o ano cheio de otimismo. Ou melhor, a grande maioria da torcida iniciou com otimismo. Eu já vi muita coisa e conheço suficientemente bem o Palmeiras por dentro – dessa e de outras gestões – para ser bastante cético com o otimismo cego ou juvenil de parte da torcida. Mas deixa isso prá lá. Vamos falar dos quatro primeiros meses do ano.

Os otimistas viam o copo meio cheio. Ainda no final de 2015, com o título da Copa do Brasil, receitas crescentes, Avanti bombando, Allianz Parque como um divisor de águas e um parceiro disposto a reforçar o time para a Libertadores, tínhamos tudo para um primeiro semestre de 2016 de muitas alegrias. Principalmente porque os principais adversários estavam se desmanchando em problemas.

A Crefisa através do casal Lamacchia, queria ajudar o Palmeiras a montar um time campeão da Libertadores (clique aqui e releia matéria do final de dezembro de 2015). Lembram disso?

Mas o que deveria ser um diferencial para montar um super time em 2016 e disputar prá vencer a Libertadores e Brasileiro, foi um aparente início de confronto com nosso Presidente. Logo na sequência o Presidente Paulo Nobre, soltou a declaração na mídia: “O Palmeiras vai caminhar com as próprias pernas em 2016“.

Notem meus amigos a diferença das datas das matérias. Uma é de 15 de dezembro de 2015. Outra é de 19 de dezembro, 4 dias depois. O casal Crefisa deve ter ficado muito alegre com isso, não acham?

Um ponto a ser observado: podemos perceber a eficiência da assessoria de imprensa do Presidente (paga pelo Palmeiras, óbvio) e sua agilidade. Aliás, eu digo que se existe algo de competente nessa atual gestão é a assessoria de imprensa e a maneira como ela forma e direciona o pensamento da massa alviverde. Mas volto a esse assunto ao final desse texto.

Pois bem, o Palmeiras ia caminhar com as próprias pernas em 2016. E decidiu dar uma banana para a oferta da Crefisa. Contratamos um monte de reservas de outros times onde o único que terminou abril como titular ainda fora de sua posição foi Jean. Nenhum contratado – repito – NENHUM OUTRO CONTRATADO foi titular absoluto seja com Marcelo Oliveira, seja com Cuca. Caminhando com as próprias pernas…

O relacionamento com a Crefisa azedou por essas e outras razões. Quem está de longe afirma que nenhum ator nesse jogo pode ser protagonista maior que o Presidente (treinador, jogador, Crefisa, WTorre, qualquer um). Eu não acredito nisso. Eu acho que o grande problema que aflige o Palmeiras hoje é a falta de capacidade de gestão de um negócio chamado futebol. Futebol hoje é negócio e precisa de profissionais. Ponto! Simples assim. Entretanto somos dirigidos por amadores, não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido literal. Eu poderia citar vários exemplos de comportamento amador, quase infantil. Mas não vou citar. O torcedor sabe do que falo.

O ponto é que o Palmeiras não é um brinquedo. É uma entidade esportiva centenária, com umas das histórias mais ricas dentro do futebol mundial, mais de 16 milhões de torcedores, apaixonados, com tradição de títulos. E em pleno século XXI enquanto vemos grandes equipes do futebol mundial em um patamar muito acima do nosso seja em gestão, seja em desempenho esportivo, alguns se contentam em sermos eliminados nos pênaltis contra o Santos num campeonato regional que é o mais claro retrato da decadência do futebol brasileiro. Ou sermos eliminado da primeira fase da Libertadores com uma goleada no Allianz, com direito a olé, contra o poderoso River… de Montevideo!!!

Perdão, derivei….

Mas a mensagem está dada. O Presidente tomou a decisão de caminhar com as próprias pernas esse ano. E o que aconteceu?

– Demorou para demitir o MO. Cuca talvez não estivesse disponível em janeiro, mas até o Alberto Valentim faria mais que o MO, já que provou ser um bom técnico quando foi chamado para tal;

– A demissão do MO mostra a falta de timing e de planejamento. Foi feita após uma derrota pro Nacional (sendo que o Palmeiras jogou pior contra o Central uma semana antes, mas como havia vencido, não demitiram o treinador). Me ajudem que já perdi a conta: quantos treinadores em pouco mais de três anos de gestão? Cinco? Seis? Sei lá… mas é a evidência clara da falta de planejamento dessa gestão;

– Quase 80 jogadores contratados em três anos; muitos deles concentrados em algum time de futebol (ou era Botafogo RJ, ou América MG); reservas de alguns times (lembram do Weldinho?) ou titulares de times pequenos. salvo honrosas exceções; contratamos jogadores em 2016 que mal vestiram a camisa e já estão sendo emprestados;

– Apenas um jogador da safra de contratados de 2016 (já perdi a conta, mas acho que com o ídolo Tchetchê chegamos a 9 ou 10 contratações esse ano), é titular. Jean. E na posição de lateral direito.

Nem falo da inoperância em decidir pelo Esporte Interativo (ou pela Globo) para aumentar nossas receitas de TV por assinatura. Nem comento sobre o posicionamento fratricida sobre torcidas adversárias nos estádios. Do absurdo que foi a contratação e agora rescisão de contrato de Fellype Gabriel, que custou por baixo R$ 4 milhões para jogar minutos. Da falta de um meia de verdade, esperando CX. De perder participação no novo contrato com Gabriel Jesus (esse foi em 2015). Do preparador físico… nem falo da gestão profissional, das promessas de reforma estatutária, de separação do clube social e do futebol. Nem falo mais sobre isso…

Financeiramente as coisas – parecem que – vão bem. Receitas crescentes, resultado do patrocínio (aqui vemos a Crefisa de novo), bilheteria (o Allianz Parque alavancou nosso ticket médio), e o Avanti (esse pode ser colocado em parte como resultado dessa gestão, mas sem dúvida cresceu também por conta do Allianz Parque). Mas a dívida aumentou em 2015 R$ 77 milhões. No período 2012-2015, subiu R$ 85 milhões. (clique aqui e leia post de Almir Somoggi sobre o balanço da SEP em 2015).

Mas o grande mérito dessa gestão – dizem os mais entusiastas – é que o Presidente emprestou e continua emprestando dinheiro ao clube, recebendo CDI mais 2% ao ano (se não me equivoco). Ótimo negócio financeiro para o Palmeiras, bom negócio pro Presidente. Ora, que adianta emprestar dinheiro se não consegue gerar receitas sustentáveis? Se gasta mal? Se perde receitas com contratos mal feitos com jogadores promissores? Se perde oportunidades com o principal parceiro? (por sinal continuamos com problemas com a Crefisa; clique aqui e leia). Sem falar que isso não é gestão. Dá um google aí e veja se o Presidente do Bayern mete dinheiro no clube. Veja quem dirige esse e outros grandes times europeus.

Não caminhamos com as próprias pernas. Como disse um grande amigo, mancamos com as próprias pernas em 2016.

E agora? após a desclassificação voltamos com a velha estratégia de comunicação:

– Detratar gestões anteriores e o contrato da Arena (clique aqui e leia).

– Exaltar as ações da atual gestão, mesmo que sejam erradas – sobre a estratégia de negociação com o contrato de tv paga (clique aqui e leia); aliás em minha opinião matéria erradíssima do amigo Danilo Lavieri; o Palmeiras perdeu uma chance histórica de se posicionar e agora vai recolher migalhas da Globo.

– Criar notícia onde não tem: Cuca dormiu no sofá para montar um super time para o Brasileiro (clique aqui e leia). Aliás, se não me equivoco será o quarto elenco que irão montar com menos de 4 anos de mandato. Um recorde para alegria dos empresários e agonia dos cofres palmeirenses.

Mas como temos um Presidente generoso, palmeirense, apaixonado, imagem bacana na mídia, e sempre disposto a emprestar dinheiro, quem se importa não é mesmo? Afinal somos sempre o time do amanhã.

E depois de todo esse texto, alguém pode perguntar: ok Criscio, então qual a sua proposta?

Respondo com meu samba de uma nota só: separação do futebol, profissionalização de verdade e governança. Mas se quer uma novalgina prá essa febre, um pouquinho menos de soberba no trato com parceiros, contratações corretas e contratar um gestor pro futebol já ajudariam um montão.

Saudações alviverdes!