Opinião: hora de desconstruir muros

Crédito para a foto: Facebook.

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Por V Criscio

A semana teve momentos tensos fora do futebol. Na Europa o Reino Unido decidiu por referendo sair da União Europeia. Aí o mundo ficou louco… bolsas caíram, dólar subiu, libra baixou, … o medo é o contágio em outros mercados com visões separatistas.

Nos Estados Unidos, em paralelo com a Copa América, a visão preconceituosa de Donald Trump segue com seus apoiadores. Não deve ganhar as eleições mas é assustador identificar uma liderança num país como os Estados Unidos defenderem as ideias que defende. Enfim, segue o jogo.

Recentemente vi uma entrevista de Barak Obama no programa de Jimmy Fallon no Tonight Show. Tirando o carisma e a lucidez com que o Presidente Obama expõe suas ideias, em um determinado trecho ele cita o que ele espera de dois partidos políticos (no caso deles lá, o Democrata e o Republicano). O vídeo abaixo a partir de 1 minuto é quando ele fala sobre isso. Há apenas legendas em inglês. Sorry!

Em outras palavras Obama fala que os dois partidos não precisam concordar, até porque na essência eles têm diferenças filosóficas importantes. Mas os fins deveriam ser os mesmos. E ele em muitos momentos da entrevista de mais de dois blocos no Tonight, fala em um mundo hoje sem muros.

Calma…. você não errou de site. Ainda é o 3VV. Vamos ligar isso ao Palmeiras.

Um mundo sem muros. Reino Unido decidiu levantar novos muros. Trump só pensa nisso. Obama defende o contrário. E o que passa aqui nesse mundinho fechado, indefectível, da SE Palmeiras?

Minha opinião é que estamos cada vez pior. Se você não é Governo, você é inimigo. Se você defende ideias diferentes, você é atacado da forma mais covarde (aquele ataque anônimo) em tentativas bem baixas de atacar não o seu conteúdo, mas a sua imagem, sua reputação. Eu mesmo sou vítima de covardes anônimos. Outra: recentemente suspenderam o ex-Presidente Belluzzo num processo prá lá de questionável. E na semana passada proibiram sua entrada no clube para receber uma homenagem. Muros altos… cada vez mais altos….

Ora Vicente, isso é política, diria alguém mais alheio a esse processo. E Belluzzo quebrou o clube e blá blá blá, diria quem lê notícia até a metade.

Não, não é isso. Isso se chama I N T O L E R Â N C I A. Intolerância com o diferente, com o que te desafia, com outra linha de pensamento. E essa intolerância está tomando formas distintas e abraçando novos públicos.

E assim chego finalmente na minha opinião deste domingo. A intolerância com a torcida. Começou com as organizadas. E esse negócio atingiu tamanha proporção que já é momento de todas as partes pararem e refletirem antes que uma tragédia aconteça nos estádios.

E antes de aprofundar no tema: não vou discorrer aqui sobre o conceito e a prática das organizadas (sejam as palmeirenses, sejam as outras) nem suas idiossincrasias. A leitura simplista indicaria: desce a borracha e fecha. A leitura mais complexa indicaria que o buraco é mais embaixo. Eu não sou dono da verdade, portanto não aponto nenhum diagnóstico. Mas aponto e critico o problema da violência gratuita contra todos no estádio e principalmente quando essa violência vem de quem tem que nos proteger.

Ufa…. então vamos lá. E assim, nesse sábado, a torcida palmeirense que foi ao Mineirão apanhou. Simples assim. Apanhou. Ninguém viu imagens dramáticas como as de Brasília onde ficava fácil acusar a Organizada de ter iniciado (e ali até agora não ficou claro quem começou o quê). No Mineirão não teve imagens da Globo. O que teve foi um número de palmeirenses (não sei dizer quantos) que estavam juntos no Mineirão, e sem ter iniciado qualquer tipo de violência, apanharam. Exatamente de quem estava lá prá defender o cidadão. A PM mineira teve uma truculência enorme. Claro, só com a torcida palmeirense. Gás pimenta, borrachada, em organizado, não organizado, homem, mulher, criança.

E qual foi a reação dos dirigentes da SEP até agora, quase 24 horas depois do fim do jogo? Nenhuma.

Não se leu uma nota de repúdio da diretoria contra a Polícia Militar. Nenhuma nota indignada.

A teoria da conspiração sempre aparece nessa hora. E há quem insinua que a diretoria alviverde está apoiando essas ações para dificultar a vida das organizadas.

Eu não acredito nisso. Seria tremenda estupidez. Mas eu acho que existe sim um enorme muro sendo construído entre a SEP e as Organizadas e por consequência a torcida não organizada. Alguns torcedores gostam disso e apoiam. Mas permitam-me discordar e trazer um contra-ponto.

Primeiro, uma consequência já está aí: a borrachada corre solta no torcedor. Eu já fui ver jogo do Palmeiras como torcida visitante. Você já foi? Imagina um grupo de torcedores apanhando da polícia? Sem ter provocado nada? Pois é, se não imagina, comece a imaginar. Aliás no facebook citado acima tem até vídeo sobre isso.

Segundo: qual o objetivo de estimular esse conflito? O que a se quer com essa prática? Nenhum clube vai conseguir resolver o problema das organizadas (que não são poucos e já passa das horas das lideranças dessas organizadas ou o ministério público ou a justiça colocarem suas ações e ferramentas para resolver esses problemas). Ou seja, o Palmeiras não é a palmatória do mundo e não está aí para definir políticas públicas de segurança. A direção palmeirense tem sim responsabilidade por agregar seu torcedor, qualquer que seja ele.

E terceiro: convenhamos, é algo de inteligência. Me parece POUCO inteligente, nesse momento que somos líderes, que os adversários estão nas cordas, na melhor oportunidade para sermos campeões brasileiros após décadas, me parece pouco inteligente arrumar problema com a torcida. É hora de agregar. É hora de unir! Em outras palavras, voltando ao início do texto, NÃO É HORA DE CONSTRUIR MUROS. É hora da torcida apoiar no Allianz e nos outros estádios, onde precisamos de melhor desempenho e pontos.

Então senhores diretores, chamem a liderança das torcidas organizadas e se resolvam. Manifestem o repúdio contra a PM mineira pela violência contra nossos torcedores, homens, mulheres e crianças. Cobrem o ministério público sobre o absurdo que houve em Minas Gerais. Demonstre uma unidade que vai ajudar um montão na campanha do título de 2016.

E antes de finalizar, um grande amigo palmeirense me lembrou hoje: em 2009 fomos jogar no Recife pela Libertadores. O ex-presidente Prof. Luiz Gonzaga Belluzzo, foi ao Governador de Pernambuco na época e avisou: vamos jogar aí, e nossa torcida tem que ter toda proteção. E prá garantir isso ele ficou lá no meio da torcida. E ganhamos… lembram?

Ah mas o Belluzzo blá blá blá…. pára! não entra nessa.

Está na hora de liderarmos pelo exemplo. E integrarmos todos. Isso só vai ajudar.

Saudações alviverdes!