Categorias
Meninos Eu Vi

Vale a pena ler de novo: Causos do Jota… Um domingo de sol na Javari

Por Jota Christianini (publicado originalmente no 3VV em 22/10/2013)

Parecia um exército em marcha. Pelotões avançavam pelos diversos caminhos, mas todos levavam ao mesmo destino: Rua Javari.

Domingo de manhã, cedo até para os padrões da Moóca, onde, exagerando no atraso, o almoço aos domingos sai às 13 hs.

O exército movimenta-se, um cidadão com o neto vestindo a gloriosa camisa do Palmeiras desloca-se acelerado. Passa por uma  família, todos com camisa do Juventus, mas que vão em marcha moderada.

fila-na-Javari

O cenário que se vê na porta do estádio mostra que talvez nem precisasse do jogo. Aquilo é um evento, é tema para sociólogo.

Não sou juventino e nem sociólogo, mas penso, logo “insisto”. Sou mais um na porta do Estádio Conde Rodolfo Crespi.

Antecipando a  chegada do resto da família  surpreendo-me com o diálogo com o bilheteiro.

— Quatro “meia-entrada”.

— Para quem são as outras três?

Quando vou responder  ele põe fim  a discussão que ele mesmo ia começar:

—  Nem precisa explicar, o senhor tem jeito de honesto por isso toma as quatro entradas.
Por 5,00 o ingresso assisti o evento dominical da Rua Javari.

Perto da catraca ouço um diálogo que mostra que não será um domingo normal.

Um jovem chega com a namorada e o pai do moço a interpela.

— E ai moça, ainda torce pela Portuguesa?

— Que nada! mudei  agora sou juventina.

Que os deuses dos estádios a protejam.

Verdade que do grupo que me acompanha, as mulheres estão lá por causa do bendito cannoli, o famoso doce italiano motivo de inúmeras matérias de jornal, revista, Tv, rádio , conversa de vizinhos, papo de botequim. Enfim o sr. Antonio que fabrica e vende os “cannoli” é uma das celebridades da Moóca.

Só que o jogo vai começar e o sr. Antonio ainda não chegou.

Os times entram em campo, o Rio Preto por coisas do destino mesmo com esse nome joga de verde e o Juventus jogará de branco para que o calor lhe seja menos penoso.

Assim que os reservas do Rio Preto vão acomodar-se nos 80 cm que separam o o alambrado da linha lateral, ouve-se o grito fatídico nessas ocasiões.

— Vida fácil hein jogador … ser reserva do Rio Preto !

Jogo modorrento, mas a expectativa é a chegada do sr. Antonio.

Final do primeiro tempo e percebe-se que ele chegou. As duas correm para a fila do cannoli, voltariam só aos 30 do segundo tempo.

SAMSUNGO segundo tempo começa quente, os times resolvem que é era de jogar bola; sai o primeiro gol e o placar, manual como manda o figurino do velho futebol,  continua inalterado.

Tempo depois o encarregado do placar sobe correndo dois lances de escada e muda o zero do Juventus para o número um.

Depois desce e volta assistir o jogo do alambrado, apesar de ter um terraço panorâmico ao lado do placar.

Faria o caminho mais quatro vezes.

Encontro dois dirigentes do Juventus, ambos palmeirenses. Alguém, do meu lado, estranha o fato porém a explicação convence.

Torcem para o Palmeiras, como muitos outros que estão aqui. Ser juventino, para eles é um estado de espírito.

Um dos zagueiros do Rio preto rebate pela lateral com força. Ao meu lado um veterano juventino pergunta se a bola caiu no quintal da casa ao lado.

Digo que não, que bateu no muro e voltou.

— Ainda bem porque a vizinha  só devolve as bolas na 2a. feira. No domingo almoça na casa da filha e não quer que ninguém pule no quintal.

Juventus goleia, os jogadores sobem no alambrado para agradecer a Ju-Jovem e na saída um torcedor quase mergulhando das sociais para  campo – não seria um voo tão grande, coisa de uns 2,5 metros – berra:

— Gostei molecada, vamos prá cima, rumo a Tóquio.

Difícil? Não sei!

Na saída, a fila do cannoli continua enorme e os sinos da Igreja de San Genaro badalam o meio dia.
O exército juventino, mas cheio de palestrinos, bate em retirada.
Todos felizes na busca da  infalível  macarronada.

***

Nota da redação: no link  Onde comprar cannoli em São Paulo  a explicação sobre os cannoli, por Marcelo Duarte. Com indicação de compra na Rua Javari. Inclusive com a imperdível cena de Godfather: Leave the gun… take the cannoli…

O crédito da foto da entrada da Javari é de Eduardo Pedroso, Embaixador da Moóca e juventino.

 

9 respostas em “Vale a pena ler de novo: Causos do Jota… Um domingo de sol na Javari”

Coincidência ou não prometi a meu filho leva-lo nessas férias a javari pra assistir a umjogo do velho moleque travesso.

Bela narrativa. Aqueles que ainda não tiveram o prazer de conhecer “esse mundo que mantém as antigas e gostosas características” que o façam no próximo domingo, a partir da 10 horas da manhã, assistindo a decisão contra o Audax do Juventino declarado Fernando Diniz.

Caso queiram saborear os “Canolis do seu Antonio” cheguem um pouco mais cedo para enfrentar a fila dos admiradores do doce.

Jota, como sempre delicioso! Deu vontade de ir no jogo, de gritar com o bandeirinha, de comer o Cannoli… obrigado!

Esse causo me lembra os jogos que ia quando criança em Sorocaba, no CIC e no Humberto Reale, ver o glorioso São Bento.
Mais um grande causooo.

Excelente! Muito bom o texto. Eu nunca fui à Rua Javari, exceto para comer na maravilhosa São Pedro, minha pizzaria preferida, mas dizem que há uma faixa com os dizeres “Ódio Eterno ao Futebol Moderno”. Acho que eles têm razão. Hoje, com esse futebol “profissional”, que movimenta bilhões de dólares no mundo, jogadores caríssimos., se perde muito disso que foi descrito. Tenho certeza que muitos de nós sentiremos falta das arquibancadas de cimento do velho Palestra, dos vendedores de pipoca e de amendoim, cujas cascas deixávamos como “sinal” de nossa passagem por aquela partida, e que jamais veremos em nossa futura “ultra moderna” Arena, onde só se comercializará produtos licenciados e toda essa frescura. Ainda bem que existe o Juventus, para que possamos um dia levar nossos filhos para mostrar como era o futebol de antigamente…

Fui uma única vez na Javari, assistir copa SP Júnior, O Palmeiras foi derrotado pelo Juventus 2×1, antes de entrar no stadium vi a molecada do verdão de perto, o goleiro um tal de Veloso e um volante brigador chamado Galeano…

Os comentários estão desativados.