Opinião: Ai Jesus

 

Por V. Criscio

Voltando de merecidas férias – e depois de algumas semanas sem opinar neste espaço – volto ao trabalho.

E o primeiro tema que quero abordar enquanto o Palmeiras surfa na liderança do Brasileiro e com chances reais de um título que não comemoramos há muito tempo, é a venda de Gabriel Jesus que toma espaço na mídia dia sim outro também.

Todas as informações abaixo estão na mídia. Não há aqui nenhuma informação privilegiada ou restrita ao  clube.

Primeiro, vamos ao currículo do garoto.

Jesus chega!

Gabriel Fernando Jesus, nasceu em 3 de abril de 1997, no Bairro do Limão. Mais tarde se mudou para o Pari e como muitos garotos de família humilde, começou jogando bola na rua, depois foi passando por times da várzea como “Pequeninos do Meio Ambiente”, “União do Peri”, “Cantareira”, “Vitória do Peri” e por último na “Associação Atlética Anhanguera”.

Na Copa São Paulo sub-15 de 2012, foi artilheiro com impressionantes 29 gols. Na época seu representante, Fabio Caran, o leva ao Palmeiras para um teste e em julho de 2013 o jogador assina com o clube até o final de 2015.

Naquele momento, o Palmeiras fica com 75% dos direitos econômicos enquanto seu representante fica com 25%. Essa prática pode até ser questionada por muitos – por que dar 25% para o empresário? – mas é o “preço” que se paga por não ter um processo de busca de jogadores de categorias mais jovens.

O jogador em seu primeiro ano de clube foi destaque. Fez 54 gols em 48 partidas. Com apenas 1 ano e 6 meses de clube, o jovem de 17 anos já havia em seu currículo: 2 títulos Internacionais e um vice-campeonato Paulista;e 37 gols em 22 jogos no Campeonato Paulista-Sub-17; artilheiro da edição 2014 e detentor do recorde da competição.

A novela de sempre

No final de 2014, e faltando um ano para o término do contrato, os empresários de Jesus propõem uma renovação. Você palmeirense sabe que se o assunto é renovação de contrato, começa sempre uma novela. Já tivemos várias, desde Kardec até Fernando Prass.

O jogador ganhava R$ 2,5 mil por mês – leia matéria do Estadão em novembro de 2014 – e os empresários buscavam um aumento de salário e aumento de participação dos então 25% para 40%, ficando 60% com o Palmeiras.

Nossos dirigentes, talvez pouco habituados a negociarem, e com uma visão estreita sobre o futuro do garoto barganharam o salário – talvez, quem sabem, alguns podiam acreditar que Gabriel Jesus “não era tudo isso”. Da mesma forma que em outras situações barganharam… com alguns economizaram alguns tostões… com outros não!

A negociação emperrou e – também especulam – apareceu a ameaça do vizinho de muro, de olho na janela que abriria para assinatura de um pré contrato no segundo semestre de 2015. Com o risco de perder Jesus o Palmeiras renovou por 3 anos (mais 2 automático). Entretanto para economizar salários o Palmeiras cedeu direitos econômicos. A participação ficou assim: Palmeiras (30%), G. Jesus (15%) e os empresários Cristiano Simões (32,5%) e Fábio Caran (22,5%). O contrato foi assinado até o final de 2019. Os salários subiram de R$ 2,5 mil para 15 mil e depois subiriam ano a ano.

Resultado: ao final de 2014 o Palmeiras renovou com Jesus mas abriu mão de 40% dos direitos econômicos da promessa. Tudo isso para economizar R$ 700 mil em luvas e alguma coisa em salário.

Em março de 2016 o Palmeiras deu um aumento ao jogador acima do que estava previsto no contrato assinado no final de 2014.

Se Tirone ou qualquer outro ex-presidente tivesse feito esse negócio, muitos estariam o chamando de burro. Ou coisa pior!

Segue o jogo!

Cláusulas de saída e as Olimpíadas

Outra curiosidade no contrato de Jesus. Sabendo do potencial do garoto os seus empresários impuseram uma cláusula: após as Olimpíadas o jogador poderia ser vendido para 4 clubes por um preço menor – 24 milhões de euros. Esses clubes seriam os 4 grandes europeus – Barcelona, Real, PSV e Manchester United (salvo engano…). Para os demais clubes a multa pela rescisão de contrato ficaria aberta, podendo chegari a mais de 40 milhões de euros. O Manchester City está na briga e acena com R$ 115 milhões pelos direitos econômicos do jogador.

Apenas para comparar, as referências de negócio para jogadores de destaque nas seleções de base e olímpica como é o caso de Gabriel:

– Oscar, após as Olimpíadas de 2012 foi negociado pelo Inter para o Chelsea por 25 milhões de libras e o Inter ficou com 50% do valor da venda (algo em torno de 40 milhões de reais à época).

– O SPFC vendeu, também logo após as Olimpíadas de 2012, o meio campista Lucas para o PSG por incríveis 43 milhões de euros, representando a maior negociação envolvendo um time brasileiro antes de Neymar, o que deixou para o São Paulo, 75% do valor da venda, ou seja, coube ao time do Jd. Leonor, pouco mais de 80 milhões de reais à época.

– Nossos rivais da Marginal sem número venderam o volante Paulinho – na época com 25 anos – para os ingleses por 18 milhões de euros deixando para o clube 50% do valor negociado (outros 50% eram do Audax), o que rendeu aos cofres mais de 26 milhões de reais à época.

 

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Reflexões e opiniões

Apesar de muitos adesistas e detentores de carteirinhas inúteis da SEP acharem que não, ter opinião crítica sobre as decisões que se tomam em nosso clube hoje em dia ainda é permitido no Brasil. Não é crime.

Dito isto, e a despeito do enorme prejuízo que essa renovação de 2014 causou – perder 30-40% dos direitos econômicos nos dão uma perda de R$ 35-45 milhões !!! somente nessa proposta do City – há um aspecto claro aqui: Gabriel Jesus foi vendido na renovação de contrato em dezembro de 2014. Com preço e tudo definido. Só não se sabia para quem. Lá atrás. Hoje é só o desfecho de algo que começou em dezembro de 2014.

Pois bem, daí vem minha reflexão e minha opinião. Tem que ser sempre assim? Perder jogador de 19 anos que ainda poderia ganhar títulos da Libertadores, Mundial, sem falar nos Brasileiros que podemos conseguir. Quantos títulos Jesus não ganharia se jogasse no Palmeiras por mais… sei lá… 10 anos? 15 anos? Se só jogasse no Palmeiras em toda sua carreira?

Ah…. mas não dá prá competir com os europeus e tampouco os chineses.

Será? prá sempre será isso?

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O que mudar? Dá prá mudar?

Hoje eu reconheço que é difícil. A estrutura dos clubes e do futebol brasileiro precisaria mudar. A começar com a poderosa Globo e seu contrato perverso para os clubes de direitos de transmissão. Passando por calendário, racionalização das competições e chegando nos clubes.

Mas eu acredito que os grandes clubes brasileiros – e aí a lista cai para 3 ou 4 equipes, Palmeiras incluído – têm condições de gerar muito mais do que os R$ 400 milhões de receitas que geramos hoje. E de todos apenas o Palmeiras tem uma Arena capaz de gerar receitas importantes (diferente do modelo de negócios do Corinthians com o Itaquerão). E essas receitas – Allianz, torcida, patrocínios, direitos de tv, outras propriedades de marketing – seriam a alavanca para remunerar e bem os gabrieis da vida que estão hoje jogando na várzea de São Paulo e do Brasil. Afinal, o Palmeiras, chutando patrocinador, perdendo Prevent Senior, brigando com parceiros de negócios, vai gerar R$ 400 milhões de receitas esse ano!! Imagine gerido por profissionais, monetizando seu torcedor, negociando bem as cotas de tv, trabalhando junto com os patrocinadores e parceiros. Poderia ser R$ 800 milhões? O Flamengo tem um plano de atingir 1 bilhão de reais em receita nos próximos anos. O mesmo Flamengo que dividimos o Mané Garrincha recentemente.

Mas há uma mudança a ser feita, a primeira, e talvez a mais difícil: a cabeça de nossos dirigentes. Eles já acordam de manhã pensando que jogador de futebol bom é aquele novinho, que joga muita bola e poderá ser vendido por um bom preço ao futebol europeu. Visão terceiromundista não é mesmo?

E diga-se de passagem, o único que pensou diferente foi LAOR, do Santos. Podem criticar a negociação de Neymar – e teve lances questionáveis mesmo – mas LAOR foi o primeiro e único presidente que vi até hoje dizendo que não esperava ganhar dinheiro com o Neymar, mas queria ganhar títulos. Se a história depois provou o contrário ou se seus detratores têm outra visão, segue o jogo. Não tenho os detalhes e não posso avaliar. Mas lá havia uma luz… a de que jogador está no clube – principalmente clube grande – para jogar bola e ganhar títulos. Eu me recuso a aceitar que o Palmeiras e o GJ estão para o City assim como o Audax e o Tchê Tchê estão para o Palmeiras.

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Reflitam… apenas isso!

Dito isso, a reflexão que fica nessa 5a feira fria é de que não podemos segurar GJ. Talvez ele fique até o final do Brasileiro e ganhe pelo menos seu segundo título como profissional do Palmeiras antes de ir prá Europa. Perder os 30 ou 40% na negociação errada de 2014 gera um prejuízo importante. Mas eu abriria mão não de 30, mas de 100% dessa negociação prá ver GJ 5 vezes campeão brasileiro, 3 ou 4 vezes campeão da Libertadores e Mundial, vendendo camisa, aumentando torcida, gerando visibilidade ao Palmeiras e seus patrocinadores, enchendo o Allianz prá ver suas jogadas, sendo medalha de ouro no Rio e Campeão Mundial na Russia.

Isso não teria preço!

Bom dia. Saudações Alviverdes!

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Fontes:

Wikipédia

Palmeiras Todo Dia

Site do Palmeiras: Balanços da SEP de 2013 e 2015 (páginas 19 e 23, respectivamente) 

Estadão: Gabriel Fernando pede valorização e acordo emperra, de Daniel Batista, Estadão

Globoesporte.com Gabriel Jesus atualiza contrato e ganha aumento salarial

FoxSports.com: Manchester City oferece R$ 115 MM por G. Jesus