Ao Palmeiras, só gratidão

 

Por Erika Gimenez

Hoje, 26 de agosto de 2016, completam-se 102 anos de Palmeiras. 102 anos de lutas e de glórias. De lágrimas e sorrisos. Gritos e murmúrios. Pulos, murros no ar, olhos fechados, coração batendo mais rápido. 102 anos de paixão.

Palestra, de italianos, operários, negros, nordestinos, Palmeiras do Brasil. Por onde quer se vá, seu verde brilha; por onde quer que se vá, o Palmeiras vai junto.

Não tem muito como explicar, já foi dito por um grande palmeirense, ser Palmeiras é um sentimento único.

E que alento traz ao coração reconhecer um irmão de torcida, seja num momento de vitória ou, principalmente, na derrota. Porque a torcida é a alma desse time, resistente, incansável, o pilar dessa paixão. Essa torcida perseverante carregou o Palmeiras em muitas situações, e em outras se irmanou com o time de tal maneira, numa simbiose das mais lindas de se presenciar.

Esse torcedores são pessoas, personagens, que tornam a vida mais emoção, menos razão. Saímos do piloto automático do cotidiano quando, por exemplo, o padre da paróquia perto de casa, ao ver meu filho com a camisa do Verdão, torna-se próximo, e consola meu pequeno quando as coisas não vão lá tão bem assim… Ou quando avistamos o ciclista de dreadlocks pedalando por São Paulo levando no capacete toda a evolução dos nossos símbolos. Ou quando ouvimos a história do filho da manicure, que tem seu ritual pré-jogo: beijos da família no símbolo da camisa que será envolvida na cabeça, como um véu, durante toda a partida. Ou quando percebemos que o treinador de futsal da escola entende e comemora a escolha do 99 para o número no uniforme do meu goleiro-mirim. Ou quando a moça loira, moradora do 11º andar, pergunta quando seria o próximo jogo. E quando o rapaz do 6º, no elevador, se surpreende com a revista especial do Palmeiras que eu lia, querendo saber onde comprei. E tem também o vizinho que passeia com o cachorro todos os dias com a camisa, aquele que mora na casa verde esmeralda. O caixa da loja de conveniência do posto de gasolina, o manobrista da padaria, a senhora do curso de inglês, o garçom do restaurante, o técnico de informática, o eletricista… O Palmeiras são todos eles, todos eles são o Palmeiras, um gigante formado pela sua torcida!

E tem o Wagner, meu irmão, escolhido pelo Verdão num duelo Santos de Pelé contra Palmeiras de Ademir da Guia em 1972. Levado pelo pai santista, junto do primogênito, ao fim do jogo, vencido pelo Palmeiras por 4 x 0, declarou com toda a autoridade de um menino de 6 anos: -Pai!! Eu vou torcer para esse time de verde!!

E como torceu! Introjetou toda febre que via na casa da Tia Aurora, toda verde, armários de cozinha e geladeira verdes! Uma mulher maravilhosa, forte, guerreira, que deixou saudade, principalmente pela bondade e ternura, expressa em seus olhos, verdes, como os de minha mãe, palmeirense convertida e que vibra hoje, aos 72, como jamais vibrou na vida.

Meu irmão herdou essa febre, assim como os olhos verdes, e quando nasci, no início do jejum, fez de tudo para que eu não sofresse. Não teve jeito, meu irmão. Passei pelos anos 80 convicta e só gritei “é CAMPEÃO!!” ajoelhada com você, aos prantos, em 1993, enquanto os vizinhos, torcedores rivais (ou inimigos?) explodiam rojões e jogavam pedras na frente de casa, em protesto à nossa bandeira pendurada na janela.

Nesse dia, queimamos a buzina do carro, desfilando e gritando pelo título. Na sequência, muitos outros vieram, e na história muitas glórias foram lembradas.

Não fui de muitos namorados, mas todos que tive eram palmeirenses. Veio o filho e foi algo natural, mais um palmeirense, de pai e mãe.

E assim, la nave vá, e assim são 102 anos de Palmeiras! Obrigada por ter me presenteado com tanta emoção. Não caberia aqui descrever tudo que já sentimos juntos, foram muitos momentos. Nas palavras do Rei, o outro, “se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi”. E como vivemos.

Tudo passa nessa vida. Tudo muda. Paixões, pessoas vão e vêm. Mas o time, esse não. Esse fica. Exagero, dirão uns, talvez com razão. Outros, entenderão. É que falo pela emoção. Nessa torcida reside uma forma de instaurar o mágico, o sonho, o improvável em nossa realidade dura, fria. Mérito do futebol, um esporte que move a paixão como nenhum outro. E mérito do Palmeiras, um time como nenhum outro. Parabéns, meu Palmeiras!