Opinião: a tese e a antítese

 

Esse fim de semana começa o 2o turno do Brasileirão 2016. O campeonato está aberto e o Palmeiras com boas chances de ser campeão. O palmeirense é otimista, pois de maneira geral acredita no título. Otimista e paciente. E olha para a tabela do campeonato com a fome de quem não saboreia um título do Brasileiro desde 1994. E tem que ser assim mesmo!

Mas uma coisa o palmeirense não vê, não se interessa, e não acompanha: a reforma estatutária, em andamento na SEP desde 2013.

Promessa da primeira campanha dos atuais mandatários, promover uma reforma estatutária que trouxesse a tal “modernidade” na gestão, a tal “reforma” está bastante atrasada. E não entrega o esperado. Alguns temas foram discutidos como promessa de campanha lá no fim de 2012 e início de 2013 entre as duas chapas que disputavam a presidência naquele momento: profissionalização, voto do sócio torcedor, modernização da gestão com maior transparência, tudo isso através da reforma do estatuto.

Só que nada disso aconteceu até agora.

A reforma foi largada nas mãos de um grupo de mais de 20 conselheiros durante o ano de 2013. Com esmagadora maioria de conselheiros ligados à gestão, inclusive representantes de forças políticas ditas de vanguarda e com total proximidade com o Presidente da SEP e de seus poderes.

E o que aconteceu? Depois de 3 anos, saiu uma proposta pouco ousada. Propõe a redução de números de vitalícios, algumas perfumarias, uma tentativa de diminuir os poderes do Conselho de Orientação e Fiscalização, a formalização de alguns cargos profissionais, código de ética que mais parece uma censura, e…. mais nada.

Não traz o voto de sócio torcedor; nenhuma palavra em criar um modelo de separação de verdade entre clube social e futebol; nenhuma referência no projeto original à sociedade anônima do futebol. Aliás esse tema lá dentro é o mesmo que falar sobre diversidade racial e religiosa com Donald Trump.

A “reforma” ora em curso tem seu rito mas é evidente que não ficará pronta para esse ano. E se ficar, será mais um remendo que não mexe no tema central nem dá o “apoderamento” (ou empowerment, se preferir) ao torcedor ou “sócio torcedor” (qualquer que seja o formato) no tema futebol. E um silêncio constrangedor daqueles que defendiam até bem pouco tempo atrás uma mudança profunda de modelo.

Claro, há sempre os mais entusiastas. Alguns torcedores de verdade; outros que mais parecem torcedores-políticos, mais engajados em elogiar a renda, falar das receitas, comemorar anúncios de lucro (numa conjugação prá lá de estranha onde o clube dá lucro mas a dívida aumenta), acreditam que tudo vai bem nas Alamedas. Discute-se o parquinho do clube, o custo da reforma, se a WT está envolvida na Lava Jato…. mas ninguém fala na reforma de verdade.  E criticam quem critica. Ofendem, apelam, …. .

Convenhamos: há uma mediocrização do debate e das expectativas. Os temas em discussão hoje dentro da SEP e aquilo que hoje o palmeirense se orgulha, são muito pequenos para uma instituição com a dimensão e a história do Palmeiras.

Então o que eu proponho?

Que a torcida, mesmo os que gostam e aprovam a atual gestão, provoquem temas mais críticos com os gestores, os que participaram da proposta de reforma estatutária, os que têm carteirinha de cargo e os “políticos” de plantão. Que eles venham discutir e apresentar mais projetos e falar menos em pessoas. Que venham explicar por que é proibido ou impossível, ou inviável, implementar as mudanças de modelo que eu e outros palmeirenses propomos. Por exemplo:

  • Por que não podemos ter um modelo como o Bayern ou de outros grandes clubes europeus?
  • Por que não podemos separar o futebol do clube social (por favor não me venham falar em separação de relatório)?
  • Por que não podemos ter um CEO de verdade no futebol, que seja do ramo, com uma diretoria 100% remunerada e sem políticos?
  • Por que não podemos ter um modelo de relacionamento com nossa torcida sem discriminação e ranço? sem elitização e eugenia?
  • Por que não podemos ter um modelo onde os milhões de torcedores tenham “apoderamento” no futebol?  Que tenham direito a voto? Que tenham participação ativa na vida da SEP?
  • E quem é contra o modelo de separação do clube em relação ao futebol, propõe o quê? Qual o modelo que vai depender menos de pessoas e mais do sistema e governança? Qual o modelo que vai depender cada vez menos de políticos? e de mecenas (se é que eles existem)?

Eu acho o debate saudável. E esse é o papel que temos que ter, provocar o debate com ideias, e não com ofensas ou desvirtuando a realidade. Já falei aqui que não sou o dono da verdade e admito que muitas coisas necessitam de tempo para serem implementadas. Mas eu defendo uma tese. Por que o outro lado não apresenta sua antítese? Será que é porque nem isso eles têm?

Quer ler mais sobre a SAF do Futebol? leia a Opinião de maio desse ano.

Leia o post sobre o modelo de gestão do Bayern de Munique clicando aqui, e veja que isso é possível.

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Em tempo: um feliz dia dos pais! Se você tem a sorte de tê-lo por perto, abrace ele com carinho neste domingo. Mas não só neste domingo.

Se não o tem mais com você, curta a saudades dos bons momentos. Com muita espiritualidade e carinho.

Saudações Alviverdes a todos os papais!

V. Criscio