Opinião: A força do matuto alviverde do interior

 

Domingo passado estive – a convite de amigos – em um evento de palmeirenses na cidade de Tietê.

É um evento anual que acontece há muito tempo e congrega muitos palmeirenses do interior de São Paulo. Empresários da região bancam tudo, inclusive a vinda de ex-jogadores palmeirenses, veteranos, para encorpar o evento. Sem apoio relevante do Palmeiras.

Mas nem precisava.

Com mais de mil palmeirenses da região participando do evento, eu não me surpreendo com a força dessa torcida no interior.

A torcida do Palmeiras é um fenômeno. Recentemente dividiu o Mané Garrincha com a torcida do – nada mais nada menos queridinho da mídia – Flamengo. No mesmo Mané Garrincha, rodadas atrás, fomos mais numerosos que a torcida do Fluminense (se bem que nesse caso, convenhamos, já era esperado). Na Arena da Baixada, contra o Atlético PR, parecíamos mandantes.

Tirando o Flamengo e o Corinthians, não há no Brasil clube com dispersão de torcedores por todo o Brasil como o Palmeiras. As pesquisas indicam os dois queridinhos da mídia como maior torcida do Brasil, mas eu apostaria meus charutos cubanos que em termos de apego e paixão não devemos nada a ninguém, nem a eles.

E isso é algo muito, mas muito relevante.

Sendo ignorado pelos gestores das últimas décadas, o palmeirense do interior tem uma paixão e um jeito diferente de se conectar ao clube (entenda leitor, que quando falo “interior” não é só do interior do Estado de São Paulo). Conheço muitos que são sócios. Outros que adquiriram o título de Eternos Palestrinos em 2007. Outros ainda que pagam o Avanti estando a centenas de quilómetros de distância e indo uma ou duas vezes por ano a jogos.

É aquela paixão pura, quase juvenil. Usam a camisa,

Entregam muito e recebem em troca…. nada.

Ok, errado, recebem sim. Recebem muito quando o time ganha e disputa títulos, que é o caso desse ano. Isso é bom, porque eleva a auto-estima deste e de todos os palmeirenses. Mas digo que não recebem em troca a aproximação, o contato, o relacionamento. Não se sentem parte do “clube” que amam.

Quando num passado recente critiquei o Avanti por apenas focar no desconto em ingressos, eu falava também desses torcedores. Eles não vão aos jogos do Allianz por conta da distância. Então qual o retorno que um título como o Avanti dá a ales? Já ouvi respostas de tudo, e a mais vazia de todas é “pensa que você vai ajudar o clube”. Convenhamos, isso não é argumento prá se usar com tamanha paixão.

O palmeirense do interior de São Paulo e desse Brasil quer se sentir próximo ao objeto de sua paixão. Conversei com vários deles, e não só nesse evento, mas nesses últimos sei lá, 15 ou 20 anos de estrada. Não pedem nada de mais. Não querem carteirinha de diretor, não querem andar no ônibus de jogador, não querem usar as sagradas (prá alguns) piscinas do clube. Não querem ser zeladores do Allianz em dias de jogos, não querem checar se a grama está boa, não querem esnobar influência. Nada disso.

Eles querem aquele sentimento de “pertencer”.

Vou dar alguns exemplos: se um torcedor desses vem à nossa cidade e quer entrar no clube; ele não quer usar a tal piscina, mas não quer ser tratado como um “estranho” ou ser barrado no portão. Outro: um torcedor desses quer ser reconhecido – através de comunicação frequente e outros instrumentos – como parte da Sociedade Esportiva Palmeiras. Um torcedor desses quer viver a experiência Palmeiras mesmo fora da cidade. Quer ver os troféus, quer ver os jogadores de hoje, quer saber das notícias em primeira mão, quer encurtar a distância física.

Um torcedor desse quer (e poderia) ter influência na escolha de quem dirige a SEP. Em outras palavras, votar prá Presidente.

O Palmeiras – aquele do futebol, do Mina, do Dudu, do Gabriel Jesus, do Fernando Prass – só será democrático e verdadeiramente do palmeirense quando reconhecer que sua torcida, incluída aquela do interior que NÃO VAI EM JOGO no Allianz, mas compra camisa, dá audiência, vai em jogos no setor de visitantes, MERECE  e PRECISA estar próxima de todas as formas dessa instituição. Isso mantém viva essa chama alviverde e reconhece merecidamente o valor desse torcedor do interior que não quer ser sócio das piscinas nem da bocha.

E nada como começar isso dando a esse torcedor o direito a voto prá Presidente do futebol.

Saudações Alviverdes, principalmente para os matutos do interior.

Vicente Criscio