Opinião: abre-se uma janela de oportunidade

Por V. Criscio

O Palmeiras parece retornar – depois de um breve período de poucos meses após o título do Campeonato Brasileiro – aos momentos de tranquilidade esportiva e política.

Tivemos de novembro para cá importantes eventos nessas duas áreas. Recordando:

– Campeão Brasileiro em 2016 após longos anos, com todas as consequências esportivas positivas que esse título trouxe;
– Um invejável faturamento em 2016, apesar da alta despesa e de um fluxo de caixa ainda “questionável”;
– Eleição do candidato situacionista Mauricio Galiotte sem candidato de oposição, representando uma “paz” política e a consequente tranquilidade para unir diferentes frentes que nos últimos anos estavam brigando entre si;
– Administração e solução política do caso Leila Pereira e sua candidatura que era questionada no Conselho Deliberativo;
– Eleição de novos conselheiros no Conselho Deliberativo e dos presidente e vice-presidente, com a vitória das forças consideradas “conservadoras” mas que darão o apoio político necessário ao Presidente;
– Injeção de dezenas de milhões de reais no fortalecimento do time, com a chegada dos consagrados Felipe Melo, Guerra e Borja, além das revelações Keno, Veiga, e a renovação do contrato de Dudu, Thiago Santos e Roger Guedes;
– Com tudo isso, dinheiro do patrocínio, do Avanti, do Allianz, o Palmeiras tem hoje o melhor elenco do Brasil e capacidade para disputar todos os títulos.

Ok, ok, alguém dirá que o treinador é um risco. É verdade. Mas qual treinador não seria? Cuca não está disponível e os outros – todos eles – têm vantagens e desvantagens. E mesmo que dê tudo errado nas mãos de Eduardo Baptista, parece que a peça “mais fácil” para se resolver em caso de necessidade é essa.

E como nem tudo na vida são flores, há no horizonte a oposição do ex-Presidente Paulo Nobre. Direito dele em – não concordando com o rumo das coisas no Palmeiras – montar sua legião e se opor ao atual Presidente. Mas até essa oposição parece frágil, dado os resultados da última eleição de conselheiros, da votação do Presidente e Vice-Presidente do CD e da deliberação do Conselho Deliberativo sobre o pedido de impugnação de Leila Pereira.

Então está tudo certo, certo?

Mais ou menos. Pelo menos na minha opinião. Há um risco, mas há também uma janela de oportunidade.

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O RISCO

O Palmeiras infelizmente ainda não caminha para o modelo de gestão que eu defendo. Perdemos quatro anos com uma proposta de reforma estatutária que não muda nada de relevante. Não coloca o Palmeiras no caminho de depender menos de mecenas – qualquer um – e não dá apoderamento ao torcedor. Ao sócio torcedor.

Apesar dos avanços na profissionalização dos “mandos médios” que houve nos últimos anos, com a contratação de gestores para algumas funções, com a implementação de sistema de integração, e outras perfumarias, ainda temos um Palmeiras dependente em tudo da caneta de apenas uma pessoa: seu Presidente. E ainda temos um grupo pequeno – 300 conselheiros e 4 mil sócios que votam – representando o interesse de um clube que hoje fatura meio bilhão de reais e tem 15 a 20 milhões de “consumidores” (para usar a expressão corrente da última gestão ao se referir ao torcedor).

Qual o risco disso? Depender sempre de apenas uma pessoa e uma articulação política de poucos caciques e da aglutinação de poucas dezenas de conselheiros. Juntos estes conseguem mobilizar algumas centenas dentre os sócios (na última eleição 4 mil sócios votaram). Convenhamos, para um time com os tais 15 a 20 milhões de “consumidores”, é muito pouco.

E veja bem: vou colocar em negrito. Não se trata de questionar as excelentes intenções do ex-Presidente, do atual Presidente, nem qualquer pretendente ao cargo. Nem mesmo questionar a boa intenção dos “financiadores” dessa pequena transformação que tivemos, principalmente nos últimos dois anos.

Mas na minha opinião, é inadmissível no futebol moderno – aquele que movimenta bilhões de reais por clube (na Europa e não na América do Sul) – ser tão dependente de uma gestão criada para um clube social. Hoje pode tudo estar bem. Mas o sucesso atual do Palmeiras não está sustentado em um novo modelo de gestão, com governança clara, que tem fóruns profissionais para lidar com temas tão relevantes no futebol, e que mistura a gestão do clube social, esportes amadores e o futebol bilionário. Está sustentado em muita grana, e uma gestão atual bem intencionada. E quando isso mudar? E se amanhã tivermos um “accidente” qualquer e sair essa “boa intenção” do poder?

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UMA NOVA JANELA DE OPORTUNIDADE

Não se trata de jogar água no chopp. O que quero é alertar que se perdemos os últimos quatro anos sem fazer a reforma estatutária que criaria condições para colocar uma nova governança no clube – e reconheço que isso quando acontecer terá que ser um processo para adaptar os poderes ao novo modelo – podemos tentar fazer agora. A gestão de Mauricio Galiotte é apaziguadora, integradora, e ele tem todas as condições para ser nos próximos quatro anos o melhor presidente da história moderna da SEP. Tem dinheiro, tem torcida apaixonada e que consome, tem apoio político, tem um excelente elenco, tem o Allianz Parque – divisor de águas. Claro, e tem bons parceiros: Crefisa, WTorre, Adidas, e outros a serem desenvolvidos.

Então o que precisa ser feito além disso? Criar condições para a mudança estatutária que separe de verdade a gestão do clube social e do futebol. Que dê apoderamento ao sócio torcedor para ter direitos políticos. Que crie a governança que blinde gestores das instabilidades políticas que conhecemos tão bem. Que crie uma gestão no clube social voltada à prestação de serviços, que é sua função principal, diferente da gestão do futebol – que é ser vencedor e entregar resultados esportivos ao seu torcedor e sustentabilidade financeira. E que dê cada vez mais poderes aos profissionais principalmente do futebol, com deveres e direitos, com metas e responsabilidades. Que diminua os cargos políticos ligados ao futebol e dê força aos profissionais, ao mesmo tempo que aumente a cobrança e responsabilidade sobre eles.

Tivemos condições de iniciar esse processo quatro anos atrás e perdemos esse tempo. Os que são contrários a esse novo modelo dão justificativas válidas, mas inaceitáveis. A principal delas é que isso “não funciona” no futebol brasileiro.

Será? Discordo. Hoje novamente temos uma conjugação de eventos e uma aglutinação de forças políticas que permitem trazer essa discussão para a mesa.

A janela está aí. Teremos coragem para fazer isso?

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