Opinião: a insustentável leveza do ser

Esta semana alguns sites publicaram artigos baseados em um material do banco BBA assinado pelo analista Cesar Grafietti.

Alguns links:
Globoesporte.com: Estudo diz que Palmeiras e Flamengo concentram 1/3 do poder de investimento do futebol no Brasil

Esporte.uol: Palmeiras seria forte mesmo sem o apoio da Crefisa

Epoca.com: Quais clubes têm melhor aproveitamento patrocínio versus torcida

Exceto pelo tema abordado pela revista Época – misturam tamanho de torcida como se fosse uma função do valor do patrocínio, o que é errado – todas as abordagens que li sobre o estudo foram boas. O estudo em si é profundo, apesar de informar em seu “disclaimer” que os dados foram utilizados de fontes públicas e dos balanços dos clubes. E esses balanços podem ter distorções. Mesmo assim o trabalho é bom e a análise válida.

A avaliação do analista do Itaú BBA destaca um “descolamento” financeiro de Palmeiras e Flamengo em relação aos demais adversários. Esse descolamento ocorreu nos últimos anos com um impressionante crescimento das receitas do Palmeiras e dos cariocas. 20% da receita de todos os clubes analisados estão concentrados nas mãos de Palmeiras e Flamengo. Os dois clubes são responsáveis por mais de 33% da geração de caixa de todos os clubes. É muita diferença!

Do lado do Palmeiras, a Crefisa fez a diferença, mas não apenas ela, como mostram os números. O Allianz Parque turbinou as receitas de bilheterias e foi o principal responsável pelo crescimento do Avanti. Crefisa, Allianz, Avanti levaram o Palmeiras ao patamar de receitas que chegou. Daqui a pouco voltamos ao tema.

Os Direitos de TV

O Flamengo teve o “mérito” de ser beneficiado pela Globo nos direitos de TV. Disparado o maior contrato de todos os 12 clubes analisados. Merece? Quem consegue medir adequadamente isso? Difícil dizer. Outro beneficiado pelos direitos de TV é o Corinthians.

Mas as receitas de TV são um caso à parte na análise. Quem ler o estudo verá que na página 10 o autor demostra que as receitas de TV no geral cresceram R$ 590 MM (+38%) em 2016 versus 2015 (sem considerar luvas*). Uma enormidade. O autor não diz mas em minha opinião a Globo não conseguirá manter esse padrão de receitas e deverá puxar para baixo nas próximas renovações. A Turner (Esporte Interativo) também bancou uma grana pesada para trazer alguns clubes no pay per view. Palmeiras incluso. E os dois bancaram ainda – de acordo com o estudo – R$ 700 milhões de luvas pela assinatura dos contratos com os clubes. Muitos deles – caso do Flamengo – lançaram como receita. O único que adota prática distinta é o Palmeiras que não reconhece como receita essas luvas, e sim como dívida nos seus balanços contábeis.

De qualquer forma na média, os direitos de tv são responsáveis por metade da receita total dos clubes.

É ou não é importante ter um bom contrato de TV com a Globo?

E as receitas?

Virou hábito no jornalismos superficial esportivo a pergunta marota sobre a relação com a Crefisa (o Lance em sua entrevista com o Presidente Mauricio Galiotte publicada nesse sábado insiste nesse tema). Mas o analista do Itaú BBA apontou corretamente que os indicadores do Palmeiras são bastante positivos. Crescimento da receita e do “ebitda” (ganhos antes dos resultados econômicos, depreciação e amortização).

O Palmeiras teve um impressionante crescimento de receitas, de R$ 301 MM para R$ 469 MM (+56%). As receitas palmeirenses são equilibradas. Bilheteria, patrocínio, direitos de TV. O clube consegue ter equilíbrio, diferente do seu principal adversário carioca. E diminuindo a necessidade de venda de jogador para equilibrar as contas – prática comum nos grandes, médios e pequenos clubes brasileiros. A venda de Gabriel Jesus ajudou em “apenas” R$ 51 MM as receitas de 2016. Esse valor teria sido muito maior se o clube não abrisse mão dos seus 75% de direitos econômicos sobre o jogador para apenas 30%, dando “de graça” para empresários uma participação importante da maior revelação do time nas últimas décadas.

Enfim, receitas altas, 2o melhor ebitda entre todos os clubes analisados, tudo vai bem?

E as despesas?

Nem tudo. As despesas cresceram 95% no ano de 2016, de R$ 159 MM para R$ 310 MM.

As contratações de jogadores que vêm e vão, despesas de salários com jogadores contratados que não são utilizados pelo treinador, erros de planejamento do elenco (encobertos pelo título de 2016 e repetidos em 2017). Indicador perigoso, considerando que os contratos são de 3 ou 4 anos, o risco é a tendência de crescimento da despesa acima da receita.

Pra se pensar. Antes de achar que os recursos são infinitos…. alguém no final do dia sempre paga a conta. E esse alguém é o Palmeiras.

Sempre a política

O terceiro parágrafo do estudo, página 4, é excelente. O texto abaixo é dele, o negrito é nosso:

“O que nós veremos nas próximas páginas é uma sucessão de decisões que objetivam resultado de curto prazo, e não pensando que em breve as Dívidas do Profut começam a vencer, que há Dívidas Bancárias, que as Receitas num País como o nosso são erráticas, que nem sempre será possível vender Atletas para fechar as contas. Mas que os Custos permanecerão ali, consumindo caixa, por algum tempo.

Esta é uma distorção do nosso modelo de controle dos Clubes. Ao serem entidades políticas, que dependem de eleição e mudam sua gestão de tempos em tempos, não há incentivo a pensar em longo prazo, se as conquistas estão a um passo de distância. O problema, é que todos os anos todos os clubes começam do zero, e estão a um passo de distância da glória. Só um será Campeão. E poucos se sustentam nessa condição por muito tempo, justamente porque só pensam na próxima conquista.”

Pois é…. sem querer querendo voltei ao tema de sempre.
Mas tentando fechar o texto de uma forma positiva, o Palmeiras está numa situação de extremo conforto: receitas equilibradas, um bom patrocinador, Allianz Parque como diferencial, e em condições de brigar para reduzir a diferença dos direitos de tv com os dois principais adversários.

Tem que cuidar das despesas. E ter mais patrocinadores, para também “desconcentrar” da Crefisa. Nada pessoal, mera decisão de negócio.

Se você ler a brilhante introdução do relatório em sua página 3, vai entender o título desse post e seguramente vai ao menos refletir sobre a leveza do descompromisso versus o peso do longo prazo. E para nós isso significa o de sempre: profissionalização, governança, modelo de gestão adequado a “cada negócio”, ….

Saudações Alviverdes!

***

Clique aqui para o download do estudo.

8 Comments Added

Join Discussion
  1. Reynaldo Zanon 25/06/2017 | Responder

    Além da eficiência na administração, o último passo que o Palmeiras tem de dar para se manter no topo de maneira perene é justamente uma aproximação – ou mesmo igualar – das cotas de TV às do Flamengo e Corinthians, até porque acompanhando, como acompanho, os índices de audiência oficiais da Globo, eles mostram mostram muita similaridade – diria um empate técnico – entre Palmeiras e Corinthians. Não há o porquê deles terem cotas bem maiores. No mais, todas as receitas do Verdão serão permanentes e com viés de alta.

  2. Paulo Estevão 25/06/2017 | Responder

    Criscio está na hora de disputar essa cadeira e ajudar o Palmeiras a subir mais um degrau !

  3. Wagner gimenez 25/06/2017 | Responder

    Se o Palmeiras conseguir se organizar internamemte e vc sabe doque edtou falando nos proximos 10 20 anos seremos imbatíveis. .

  4. Gustavo Aroni 25/06/2017 | Responder

    O pior de tudo é que com tanta despesa realizada não se consegue montar um time hegemônico. Mesmo que tenha todo o dinheiro do mundo, nada irá mudar. Continuam com a mesma mentalidade de vender qualidade e trazer quantidade. De vender uma Ferrari e trazer cinco Uno’s. Baciáveis comprados a peso de ouro, com contratos eternos, que ficam na reserva e não jogam (e nem têm qualidade pra tal), quando esses reservas deveriam ser muitos dos que são titulares hoje (Jean, Roger Guedes, Dracena, Zé Roberto, Willian) se pensassem em trazer sempre alguém melhor do que já temos no elenco, não pior.

    • Exatamente, porém quando questionamos isso somos cornetas e devemos aplaudir, afinal vieram dois títulos em dois anos, reclamar de quê? Cinquenta e três jogadores em cerca de trinta meses, dentre os quais pouco mais de uma dúzia valeu a pena ter trazido. Se o clube vende um jogador nota nove, não será trazendo dois “notas 4,5” que vai compensar a perda, mas o imediatismo e o fanatismo impedem muita gente de enxergar o óbvio.

  5. Rodrigo Portes 25/06/2017 | Responder

    Vicente, PARABÉNS pela sua sóbria e inteligente análise (como sempre)! Precisamos “aproveitar o momento” extremamente favorável e propor as mudanças que levarão o Palmeiras a uma liderança perene e sustentável como a separação do clube social do futebol e um trabalho melhor com as categorias de base.

  6. cassiano 25/06/2017 | Responder

    Vicente, muito a boa analise/comparação em cima do estudo, que mostra dois fatos que a imprensa insiste em camuflar; um – não somos totalmente dependentes da Crefisa como propagam aos quatro cantos, e temos outras boas fontes de receitas; dois – urubus e gambas são muito dependentes/favorecidos pelas receitas da TV e não estão no nosso patamar quanto as outras receitas, como ST e bilheteria (gambas bilheteria é zero).

Leave Your Reply