Reforma estatutária: ou o feitiço do tempo

Em 1993 o filme Feitiço do Tempo trazia Bill Murray no papel de Phil, um repórter de televisão que fazia previsões de meteorologia. Ele vai a uma pequena cidade fazer uma matéria especial sobre o celebrado “Dia da marmota”. Pretendendo ir embora o mais rápido possível, ele inexplicavelmente fica preso no tempo, condenado a vivenciar para sempre os eventos daquele dia. Todo dia o repórter acorda às 6h00 e vive toda a experiência desse dia.

Mais ou menos isso acontece com o Palmeiras e sua reforma estatutária que parece presa no tempo, condenada a este déja vu a cada dois anos. Essa reforma, que caminha a passos de tartaruga na SEP desde 2013 foi tema de matéria do Lance nesta semana (clique aqui e leia).

A história recente é a seguinte: na gestão anterior, em seu primeiro mandato, e depois de prometer em campanha que iria reformular o estatuto, o que fez a diretoria daquela época sobre a reforma estatutária? Terceirizou sua responsabilidade ao CD de 300 cadeiras. E assim formou-se a primeira comissão da reforma estatutária.

No mundo corporativo dizem o seguinte: quer fazer um projeto NÃO ANDAR? monte uma comissão. Pois bem. Comissão montada.

Essa comissão formada na metade de 2013 (ou seja quase 6 meses após o ex-Presidente assumir seu primeiro mandato) era constituída por mais de 20 conselheiros, onde 90% deles eram diretores daquela gestão ou faziam parte da base de apoio do então Presidente Paulo Nobre. Mustafá Contursi incluído nessa lista, afinal Mustafá era o grande aliado, ou o “player” de acordo com a novilíngua da época.

Aquela comissão trabalhou por cerca de 18 meses reunindo-se rotineiramente para formular um texto. Ninguém duvida do árduo trabalho, principalmente por alinhar visões tão distintas entre mais de 20 conselheiros. Como era esperado, não conseguiu concluir seus trabalhos e em fevereiro de 2015, após eleição de 76 conselheiros onde alguns foram reeleitos e outros não, aquela comissão foi reajustada para refletir o novo conselho.

BING! 6h00. Dia da marmota. Começa de novo!

Mais dois anos se passaram. E com uma comissão aliada ao segundo mandato do então Presidente, houve avanço, é verdade, porém pouco. Algumas propostas foram concebidas, em resumo: redução do número de vitalícios, redução do número de diretorias estatutárias, aumento do número de profissionais, diminuição dos poderes do COF, e um dos principais temas na visão de alguns: o aumento do mandato do Presidente de 2 para 3 anos. Deveriam a partir daí formar sub-comissões com reuniões setoriais para avaliação. Na paralela os conselheiros entrariam com emendas. E tudo deveria ser votado ainda em 2016.

Não aconteceu.
BING! 6h00. Dia da marmota. Começa de novo!

Chegamos agora em 2017. Quatro anos depois de se iniciar uma administração que prometia reformular o estatuto, vem uma nova gestão, que na teoria é continuidade da anterior. Isso só na teoria porque os aliados de ontem são adversários hoje.

Mas dado o impasse de temas controversos – apesar dos quase 4 anos de discussão na comissão que veio de 2013 a 2016 – e com 76 conselheiros eleitos ou reeleitos em 2017, faz-se necessário formar-se uma uma nova comissão. Desta vez mais enxuta, com 8 participantes – dois indicados pela diretoria executiva, dois do COF (Mustafá Contursi é um deles) e quatro do conselho deliberativo – o que deve permitir uma discussão mais produtiva.

Desta vez a tentativa é ser mais pragmático: fazer as mudanças necessárias em termos de ajustes do estatuto e deixar os temas mais complexos para depois.

Pois bem. Um esclarecimento é importante. A matéria do Lance sugere que Mustafá Contursi é o vilão de agora. Mas o ex-Presidente está aí nas comissões desde 2013, no papel que lhe cabe – indicado pelo COF – e em todas as situações como um aliado do então Presidente. Importante esse esclarecimento porque alguns desavisados usam a imagem do ex-Presidente pro bem e pro mal, conforme suas conveniências.

Mas o cerne do problema não é esse. Não é Mustafá. Ou a aliança deste com Galiote (afinal era aliado do antecessor). O cerne do problema é: uma reforma estatutária não será escrita de baixo para cima.

Ohhhhh…. que visão mais chavista é essa no 3VV? Sugere que seja empurrada goela abaixo de cima para baixo?

Não!

Uma reforma estatutária poderá vir como proposta do Presidente e sua diretoria executiva sim. Principalmente se este promete isso em campanha. Depois de formular uma proposta, deverão submetê-la democraticamente e estatutariamente ao Conselho Deliberativo e posteriormente aos sócios. E de acordo com os poderes do CD, incluir ou não emendas.

E para se formular uma proposta de reforma estatutária é mandatório saber o que quer! Ter um planejamento estratégico de longo prazo, mirando os próximos 10 anos. Com uma visão e objetivos claros para o Palmeiras nesse período. Esse planejamento depois de construído deve ser alinhado e debatido entre diretoria e principais líderes políticos. E aí sim submeter esse planejamento ou aquilo que concerne a mudanças estatutárias, a uma reforma no estatuto.

Só que não! Nem na gestão anterior e aparentemente nem nessa há o interesse em se definir um objetivo de longo prazo. Tivessem feito isso em 2013 e já teríamos avançado 4 anos. A situação de terra arrasada de 2013 e o apoio político e institucional que o presidente anterior tinha permitiriam esse tipo de abordagem. E quem sabe teríamos avançado no estatuto. Mas não fizeram. Terceirizaram para o Conselho. Que com suas idiossincrasias e natural divergências de visões, não evoluiu na reforma.

E BING! voltamos ao dia da marmota, como o repórter Phil em Punxsutawney.

Portanto é o que temos para o momento. A reforma estatutária não saiu por responsabilidade da gestão anterior. Se quisessem, teriam formulado. Agora vão fazer um ajuste, propor mudanças necessárias, mas ainda insuficientes para a modernização da SEP. E olhe… parece que esse é o melhor caminho para o momento.

E se você quer entender o BING e o Dia da Marmota clique aqui!

Saudações Alviverdes!