Um domingo no Parque

Por todos os motivos que apenas o palmeirense reconhece, Um clássico como Palmeiras x São Paulo tem o dom de despertar paixões inusitadas. Essa foi a inspiração de Erika Gimenez abaixo.

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Por Erika Gimenez

Os meninos estavam jogando na quadra despretensiosamente. Dava para ouvir o som do estádio perfeitamente…

Domingo no clube. Mais um domingo como tantos outros passados no clube. Sem dúvida, um domingo diferente: dia de jogo, dia de clássico. Aquele clássico.

O jogo começou e de repente veio aquele silêncio… Sozinha com o celular, eu não podia acompanhar o jogo em um site qualquer.. Não… Acompanhar jogo tenso é coisa que se faz entre os seus, entre amigos, família. Porque numa situação dessas, todo mundo sabe o que outro sente, mesmo que não se fale absolutamente nada. Todos vão entender as manias, as cornetas, as mandingas, enfim, todos vão se entender porque fica todo mundo louco, é assim! Resolvi acompanhar o jogo apenas com os comentários do grupo de mensagens que me recebeu e me acolheu como mais uma paciente dessa febre maluca…
Então, no fundo, eu não estava sozinha. Estava na quadra do clube, com algumas crianças brincando por ali, o celular e o grupo dos malucos como eu… Ah, e um bombeiro perto, claro, só para garantir.
Chegaram no celular várias mensagens ao mesmo tempo… E foi no grupo que li que tínhamos tomado um gol…

Eu estava sentada num banco, sol de fim de tarde, crianças jogando bola e eu assistindo, guardando comigo o terrível placar, bem quietinha. Mas eles perceberam o silêncio, a tensão, o ar pesado, até que Dante, meu filho, gritou: “quanto tá mãe? “. Respondi “um a zero” baixinho. Ele percebeu pelo silêncio no estádio e pela minha entonação que era um a zero pra eles… O colega de quadra ainda insistiu: “im a zero pra nós, né?”… Respirei fundo, e respondi tranquila (embora quisesse gritar e chorar e xingar, tudo ao mesmo tempo): “não, meu querido, estamos perdendo, mas foi um chute a gol deles, nós estamos jogando muito melhor…”.

Depois da notícia, a criançada passou a fazer chute a gol… De bem longe, todos chutavam, uns forte e com raiva (Dante), outros com jeito e efeito na bola. As bolas dançavam no ar à minha frente, algumas deslizavam nas redes e repousavam dentro do gol. Outras voavam alto, carimbavam as grades em volta da quadra, quase indo parar na rua (Dante…). E foram vários chutes a gol, um após o outro, sem parar, em silêncio.

Até que ouvimos a festa do gol dentro do estádio. Todos chegam até a grade e me encaram aflitos. Confiro rápido no grupo as mensagens que os amigos postaram e grito: “GOL, GOL DO BIGODE!”.
Uns ajoelham, testa no chão, outros deitam na quadra e olham para o céu (Dante…) e eu dou meu melhor sorriso, aquele sublime, de singela alegria, de gratidão pelas pequenas coisas da vida que fazem toda a diferença…

Um tempo depois e ouvimos nova festa, os meninos se viram na minha direção, freneticamente confiro antes as mensagens no grupo para depois gritar e pular do banco: “BIGODE DE NOVO!!”.
Festejo beijando pela grade meu menino suado que me olha radiante… Todos se cumprimentam com as mãos como se estivessem comemorando o gol que eles fizeram.

E será que não foi?