Opinião: Sobre Corinthians, Palmeiras, PT, cultura e Rede Globo

Por Helder Bertazzi

O jogo de domingo pode ser considerado um case no jornalismo. Muito se fala sobre a influência da Rede Globo em todos os aspectos da vida brasileira. Ora criticada da maneira como faz jornalismo, e criticada com razão pelos petistas, que só veem seu partido ser vinculado à corrupção, até que a emissora depois de bater o que considera suficiente, mira também no PMDB, esse exemplo de partido ético e moral, ora aplaudida pelos grupos chamados progressistas, quando em suas séries e novelas trata do homossexualismo de maneira a convencer o público que é preciso enxergar a quem tem outras opções sexuais com naturalidade e dessa maneira equilibra o jogo entre conservadores (na política) e progressistas (na cultura). Ela sempre influencia a opinião pública de maneira determinante. Talvez essa força vá se perdendo com o avanço das redes sociais. A ver.

Mas os exemplos acima são notórios, chegando quase à unanimidade quanto à postura da emissora em temas tão importantes em nossas vidas. No entanto, há ainda outro viés muito pouco falado e que é preciso que também seja discutido até onde a emissora carioca influencia com suas reportagens o futebol brasileiro.

No meio desportivo há muito se comenta essa influência. Porém é preciso expandir esse público, para que todos conheçam o que diz a mídia. Assim como muito falamos da influência da emissora na política e nos costumes da sociedade, é fundamental discutir o quanto ela influencia (prejudica?) o esporte, pois este é um produto que lhe dá muito dinheiro e vale tudo para mantê-lo sob seu controle. Poderia aqui citar “n” vezes em que a Rede Globo exerceu influência nefasta sobre uma partida ou time que ela escolheu para ser o vencedor. Vou citar aqui como exemplo o jogo de ontem (fresco em nossas memórias) entre Corinthians e Palmeiras, o maior clássico do futebol brasileiro, queiram ou não os cariocas (mas essa é outra discussão) e como se dá a cobertura “jornalística” da emissora.

Na sexta-feira, o Globo Esporte mostra tudo sobre o Corinthians: como foi a semana de treinamento, como os jogadores estão concentrados, sempre com chamadas ao vivo do CT. Matéria de uns cinco minutos. Terminada, volta para o estúdio, onde o apresentador chama a matéria do Palmeiras, que também teria lá seus cinco minutos e…..bingo! a matéria não vai ao ar com problemas de áudio, algo inimaginável em se tratando de Rede Globo. E fica assim só com reportagens do Corinthians.

No dia seguinte, sábado, todo investimento é no CT do Corinthians. Lá estão o apresentador, o repórter e o comentarista e ex-jogador Casagrande. Que diz: “jamais vi algo tão maravilhoso. 32 mil pessoas vendo um treino de um time. É de arrepiar”. Esqueceu o nobre comentarista que um mês antes os tricolores paulistas colocaram 42 mil pessoas num treino cujo jogo seria lá no Rio de Janeiro, o que torna o fato ainda mais interessante… E aí, nesse oba-oba todo, chamam o repórter ao vivo da Academia de Futebol, que diz: “por aqui quase uma centena de torcedores vieram prestigiar o treino”. Claro que ele não disse que o treino era fechado inclusive para ele, jornalista, pois assim decidiu a diretoria, ao contrário do adversário, que abriu as portas para o seu torcedor. Mas essa informação não chegou ao público. Ou seja ficou assim para quem assistia o Globo Esporte: 32 mil torcedores de um lado e um punhado de outro, sem que o fato tivesse explicação. Após esse ao vivo da Academia, corta de novo para o CT corintiano, quando ouvimos a seguinte frase do repórter: “vai ser impossível o Corinthians perder para o Palmeiras”.

Vai ser impossível? Oi? Como assim?

Bom, aí você se pergunta: e por que tudo isso? Só para promover o clássico? Não há mais nada, nenhuma outra intenção?

Vamos lá: a pressão vem da TV. A cobertura que a Globo faz de seus produtos é feito de modo que seu objetivo seja alcançado. A ela, interessa que um time seja o campeão. Ponto. Nem sempre ela tem como influenciar um resultado. Ela não consegue influenciar a F-1, por exemplo. Se pudesse, o faria com certeza. Então, como fazer no caso do futebol? Influenciando o homem do apito. Afinal, ele também vê televisão.

É preciso deixar claro que o Corinthians não compra árbitros, e não tem nada a ver com isso ou com o que acontece fora do campo. Essa é uma questão que não passa pelo clube. Outrora, é verdade, já ocorreram fatos como 1-0-0, para ficar só com esse exemplo. E não só do Corinthians, sejamos justos. Houve tempo em que o governador do Estado sentava no banco de reservas do seu clube de coração para pressionar o árbitro da partida. Voltando ao jogo de ontem, e falando sobre a pressão exercida em cima da arbitragem, o que teria passado pela cabeça do árbitro de linha de fundo ao apontar o pênalti, com o braço esticado em direção à marca na grande área? Ora, eles usam microfones justamente para passar a informação, como forma de deixar o árbitro do jogo decidir se dá ou não a falta que apontam. Justamente usam o microfone para não exercer sobre o árbitro uma pressão enorme, já que a TV e o público acompanham tudo em campo. O que se viu ontem porém, foi o oposto.

Tem mais: sobre a postura do quarto árbitro que vê Gabriel voltar a campo sem que tenha sido autorizado. Por que não impediu o jogador de voltar ao gramado? Por que o árbitro não o advertiu com o cartão amarelo, que seria no segundo no jogo? Tudo isso ocorre porque a emissora exerce uma pressão descomunal em cima da arbitragem. E exerce por meio de seu jornalismo. Tal qual faz com a política e com a cultura do povo brasileiro. E nem discuto aqui o gol impedido ou o polêmico pênalti. Erros acontecem. A discussão não é sobre arbitragem, mas como ela sofre pressão da emissora que tem os direitos de transmissão.

A Globo decidiu que aquele jogo teria um vitorioso. Passou a semana falando do clássico. Sexta e sábado só cobriu o Corinthians, mostrando a paixão do torcedor, como se do outro lado não houvessem apaixonados pelo seu time. Você consegue imaginar o árbitro vendo e sentindo tudo isso durante uma semana? Pois é… Há de se dar razão a quem clama por arbitragem internacional, por um profissional que não viva no país e não vá sentir a pressão que é feita durante todos os os dias, durante uma semana, em seus telejornais. Se bem que aí pode aparecer um Castrile da vida e nada resolveria…

Moral da história: quando a Globo escolhe quem ela quer, não fica pedra sobre pedra. “Sai de Baixo”.