Editorial: sobre poderio econômico e competências

 

 

Por Vicente Criscio

Enquanto palmeirenses e corintianos aguarda a primeira partida da final do Paulistão 2018 – que convenhamos, depois de 19 anos de espera finalmente teremos uma final digna das grandes rivalidades do futebol mundial – observo que parte da imprensa continua dando destaque ao acessório (ao invés de focar no principal).

Qual acessório? o tal “poderio econômico” do Palmeiras.

Quase que como uma desculpa já engendrada para uma eventual perda do título – não estou dizendo que vão perder o título, mas parece já uma tentativa de justificar a possível derrota corintiana no confronto – quem alimenta essa história ou enxerga a superfície das coisa ou pratica a desonestidade intelectual. Ou ambos.

Senão, vejamos. Qual time até recentemente se orgulhava de ter um presidente e depois ex-presidente do Brasil como seu conselheiro honorário? e padrinho no investimento de uma arena que viabilizou o sonho da casa própria do Corinthians (que por sinal, arena e principais atores investigados na Lava Jato)? que estampou o patrocínio da Caixa Econômica no peito por algumas temporadas? que tem junto com o Flamengo o mais gordo contrato de direitos de transmissão do futebol brasileiro? e que por tudo isso (e quem sabe por outras coisas) é considerado o time do “apito amigo”? Ah e já ia esquecendo: o atual presidente é deputado federal.

Aqueles da imprensa que falam do poderio econômico do Palmeiras (bem como dirigentes que tentam justificar suas mazelas “culpando” a boa gestão palmeirense) esquecem um período recente da história corintiana onde ali sim havia (e ainda há?) um “poderio político” que se alimenta economicamente da influência de seus padrinhos.

E o Palmeiras? Na mesma época que o rival desfilava sua influência política, amargava resultado ruins dentro e fora de campo.

Entretanto, por seus méritos, por sua gestão, e mesmo sempre enfrentando internamente guerras políticas por ego ou poder, o Palmeiras fez a lição de casa. A partir de 2014, recém saído da série B, o Palmeiras iniciou um processo amargo de saneamento das dívidas, alongando e pagando seus débitos (esforço que diga-se de passagem iniciou-se na gestão Paulo Nobre). Construiu uma Arena moderna (projeto que veio lá de trás, embaixo de muita pedra interna e externamente), mas que depois de inaugurada permitiu elevar o preço dos ingressos, alavancar o programa de sócio-torcedor (Avanti), resgatar a auto-estima do palmeirense, e ser parte importante das fontes de receitas do clube. Arena essa, aliás, sem nenhum dinheiro público, totalmente feita com a iniciativa privada (WTorre) e que deixa 100% da bilheteria nos cofres palmeirenses, além de trazer outras receitas através da parceria com a construtora.

E ainda teve sorte ou competência (ou ambos) para atrair a Crefisa, como patrocinador. A empresa, de capital fechado, logo os seus donos podem colocar quanto dinheiro eles acham que cabem nos cofres palmeirenses, sem dar satisfação à opinião pública (ao contrário da Caixa Econômica, Petrobras, e outras instituições com domínio da gestão pública e que investiram anos em clubes de futebol, Corinthians entre eles).

Se o Palmeiras hoje tem essa auto-suficiência financeira que lhe permite trazer os melhores jogadores e não ter dívidas na praça, é porque trabalhou para isso. Mas no Brasil das mazelas políticas, quem faz a lição de casa e é competente, é discriminado muitas vezes pela mesma imprensa que deveria valorizar esse tipo de coisas.

Só que não. No Brasil, é pecado ser rico. Mas ser picareta, ora, às vezes é perdoado….

Que o Palmeiras vença nessas duas partidas uma final que tem tudo pra ser épica. Que seja a vitória do bom futebol, com resultado construído dentro de campo, sem interferência externa. E que isso seja a consequência de um esforço de anos de trabalho e dedicação de muitos palmeirenses, nem sempre conjugando a mesma cartilha política, mas que tiveram a visão e trabalharam para fazer o Palmeiras chegar onde está chegando.

E os adversários? Que parem de reclamar do “poderio econômico”e façam o mesmo que o Palmeiras fez, até para valorizar o futebol brasileiro. E que parte dos jornalistas da imprensa deixem de ter essa visão tacanha, onde o competente é culpado pela boa gestão, e o incompetente é a vítima.

Saudações Alviverdes!