Opinião e posição sobre os 3+3

 

 

Por Vicente Criscio
Conselheiro em 2o mandato pela SEP

A discussão mais polêmica nas últimas semanas da SEP não é a consistência de resultados do treinador Roger Machado ou se nossa defesa carece de reforços. 

A discussão que se tornou o ponto central entre os conselheiros do Palmeiras e que irá a votação nessa 2a feira dia 21 é sobre a proposta de reforma estatutária que altera o prazo do mandato do Presidente de 2 para 3 anos, com possibilidade de reeleição.

Entendendo o caso

Hoje na SEP o Presidente é eleito para um mandato de dois anos com possibilidade de reeleição de mais dois. O Palmeiras ainda é um dos poucos clubes no Brasil que adotam esse prazo de dois anos, junto com Inter e Sport. A imensa maioria dos clubes brasileiros tem mandato de 3 anos para Presidente. Alguns com possibilidade de reeleição e outros não.

>> Leia mais em matéria do Estadão assinada por Ciro Campos clicando aqui.

Quem defende os 3 anos aponta para uma maior governabilidade. A maioria de quem é contra essa mudança no Palmeiras alega que beneficiaria diretamente ao Presidente Galiotte que – se reeleito no final do ano – poderá ficar 3 anos no segundo mandato.

Indiretamente, outra pessoa que se beneficiaria é a Presidente da Crefisa, Leila Pereira. Leila está no segundo ano de seu primeiro mandato como conselheira. Irá seguramente se reeleger conselheira em fevereiro de 2021, e assim terá condições estatutárias para se candidatar Presidente do Palmeiras. Se Mauricio ou o próximo presidente ficar 3 anos – período 2019 a 2021 – será a janela de tempo perfeita para Leila se candidatar tendo apenas um mandato de diferença. Provavelmente de Maurício Galiotte, seu aliado.

Pronto. As peças estão na mesa.

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O que eu defendo

Não posso falar sobre meu posicionamento sem antes deixar claro aqui qual meu projeto para Palmeiras. Esse site tem 11 anos. Quem me acompanha desde 2007 sabe o que eu penso. 

O projeto que defendo para o Palmeiras – falando de forma muito simplificada – é um futebol gerido como negócio + paixão, enquanto o clube social tem que ser gerido como uma prestadora de serviços, quase como um condomínio. Essas duas entidades – futebol e clube social – não deveriam se misturar. Há enormes benefícios tanto para o clube social quanto para o futebol quando dividimos o modelo de gestão e governança dessas duas entidades. 

Outra ponto é a profissionalização. A Diretoria Executiva deveria ser composta por executivos que deveriam ser remunerados, com dedicação integral, com metas claras e Governança Corporativa. Apesar dos avanços recentes na gestão da SEP, com maior número de profissionais nas áreas mais críticas – finanças, marketing, futebol – ainda estamos longe desse modelo. 

Particularmente há diversos clubes no mundo que nos inspiram, principalmente na Alemanha, Inglaterra e Espanha. Dentre esses o que eu mais gosto é o do Bayern de Munique. Não é de hoje que falo isso.

>> Leia mais meu post de 22 de maio de 2016, quase dois anos atrás: Aprendendo com os alemãesClique aqui.

Em tempo. Esse projeto para o Palmeiras vem sendo construído desde 2003. São mais de 15 anos de estrada. Tenho um grupo de colaboradores, gente séria, alguns sócios do Palmeiras, outros não, mas todos palmeirenses. Professores da GV, profissionais de mercado, empresários, executivos, que foram se incorporando a esse grupo, e todos eles sem qualquer apego a cargos ou carteirinhas. São algumas das vozes roucas do Allianz Parque, porque a imensa maioria vai aos jogos. Torce. E também colabora comigo pensando nesses modelos.

E esse projeto, para ser implantado, não acontecerá da noite pro dia. É um processo que leve talvez 10 anos … e gestões sérias que caminhem nesse sentido. 

Coloque esse capítulo num estacionamento. Voltaremos a ele.

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Mas e a emenda 3+3? 

Antes de eu dar a minha opinião é importante deixar claro que existem bons argumentos dos dois lados. De quem apóia e quem é contra a mudança do prazo do Presidente. Existem pessoas sérias, que pensam no bem do clube e na Governança dos dois lados.

Mas no Palmeiras tudo vira uma guerra. É impressionante a capacidade que temos como instituição de exacerbar os ânimos. No Palmeiras tudo é superlativo. O amor e a raiva também. Me contam o quanto a Parmalat levou “fogo amigo”. Foram 10 anos de co-gestão e provavelmente teríamos ganho muito mais com uma paz interna que nunca houve. Eu vi com esses olhos como a WTorre tomou pedrada para colocar em pé a melhor e mais moderna arena da América Latina. Sem dinheiro público. Com 100% da bilheteria ao Palmeiras. Mas mesmo reconhecendo imperfeições no contrato que deveriam ser revistas, alguns tentaram dinamitar o relacionamento com a WTorre.

E agora a Crefisa. Alguém tem dúvida que o Palmeiras com a Crefisa – e com uma sólida Governança – pode nos ajudar junto com o Allianz Parque, Avanti, torcida apaixonada, e etc, a ter nos próximos 10 anos o melhor desempenho esportivo e econômico da nossa história?

Eu não tenho essa dúvida. Desde que haja um projeto de longo prazo para trazermos essa Governança.

E assim deveríamos desvincular as pessoas  por detrás do tema e perguntar: o que é melhor para o Palmeiras? Três anos de mandato ou dois?

Parece uma pergunta simples e que deveria nortear sempre a cabeça de quem tem alguma influência na gestão do clube.

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A decisão

Votarei pelos 3+3 anos. Faz mais sentido para o clube. Permitirá maior governabilidade. Ponto. Tudo que vier depois disso será secundário.

Essa decisão não foi simples. Veio através de outro processo. Costumo dizer que o cargo de conselheiro não é meu. Fui eleito por um grupo de amigos que conheço há anos. Alguns conheci aqui pelo 3VV. São sócios onde muitos nem mesmo  frequentam o clube. Alguns nem em São Paulo moram. Moram em Porto Velho, Sorocaba, Bauru, Campinas, São José, Atibaia, Ribeirão Preto, Analândia, Santos, Austrália, Inglaterra, e em outros lugares …. outros vivem em São Paulo. Alguns pagam as mensalidades até sem usufruir dos benefícios do clube. Portanto são amigos caros, grandes palmeirenses, preocupados com a nossa instituição, e que mereciam participar desse processo de decisão pessoal.

Fiz um exercício com esses amigos e eleitores: fiz a pergunta. Para onde devo ir? Apoiar o 3+3 ou ficar do lado 2+2?

De forma quase unânime, a orientação veio no sentido em apoiar o 3+3. Pelo conceito, pela Crefisa, pelo momento do Palmeiras. E porque a solução e o grupo que apóia o 3+3 parece ter a maior aderência ao projeto guardado no estacionamento lá em cima.

Assim seguirá a vida. Cada escolha uma renúncia. Todo processo político implica em uma decisão que te leva para um lado e abre portas, e por outro lado, fecha outras portas. Mas o mais importante em qualquer processo desses é respeitar as decisões e posicionamentos, mesmo aqueles contrários aos seus, ter a consciência tranquila de quem tomou a decisão de forma honesta e transparente. E sempre ter em mente que estamos conselheiros para responder a agir em torno da principal pergunta: o que é melhor para o Palmeiras?

Saudações Alviverdes!