Post de Fernando Galuppo: Atire a primeira pedra

 

Publicado originalmente por
Fernando Galuppo em seu blog (clique aqui e leia lá).

Nos anos 10 abrimos nosso clube para servir de abrigo aos enfermos da gripe espanhola. E nem por isso nos vangloriamos por cumprir uma função social que era de responsabilidade do Estado.

Nos anos 20 já tínhamos em nossas fileiras atletas negros no futebol e no atletismo. E nem por isso não nos pouparam o rótulo de racistas.

Nos anos 30, recebemos Getúlio Vargas, o filho de Benito Mussolini e os membros da aeronáutica de elite do Duce dentro de nossa sede social. E nem por isso mudamos nossos princípios democráticos.

Nos anos 40 o então presidente da República Getúlio Vargas esteve presente num jogo do Palestra Itália, no jogo inaugural do estádio municipal do Pacaembu, bem como em nossa sede social. E nem por isso deixamos de sofrer toda a perseguição imposta pelo seu regime totalitário e xenófobo, devido as nossas raízes imigrantes e italianas.

Nos anos 50 o então presidente da República Juscelino Kubitschek esteve presente num jogo do Palmeiras. E nem por isso nos alinhamos aos seus pensamentos.

Nos anos 60 fomos aclamados pela UNESCO com todas as suas honrarias por termos auxiliado milhares de entidades beneficentes. E nem por isso nos colocamos em posição de soberba.

Nos anos 80 e 90 recebemos ministros, prefeitos, governadores e tantas outras autoridades das mais diversas correntes políticas em nossos jogos e sede social, com amplo registro público. E isso não nos fez menos ou mais tolerantes ou intolerantes. Mais direita, centro ou esquerda.

Nos anos 2000, Lulinha, filho do então presidente da República naquela ocasião, Luís Inácio Lula da Silva, foi contratado pelo Palmeiras para trabalhar no departamento de futebol do clube. E isso não nos fez adotarmos uma posição ideológica compatível com o chefe de Estado.

Durante toda a nossa história revertemos inúmeras rendas para a municipalidade edificar os seus projetos, acima de matizes políticas.

A vinda do atual presidente da república Jair Bolsonaro para a última partida do Campeonato Brasileiro e entrega do troféu e medalhas aos campeões está em linha com a tradição Palestrina em receber importantes estadistas e autoridades. Nada além disso. Qualquer outra ilação é fruto de teorias conspiratórias ou paixões pessoais.

Nosso relacionamento com qualquer autoridade e órgão de poder sempre foi (é e será) institucional. Nunca ideológico!

Isso é premissa de fé lavrada em nossa Carta Magna, o estatuto social da Sociedade Esportiva Palmeiras, no artigo 32, parágrafo V.

“Respeitar as autoridades dos poderes e órgãos administrativos, sendo-lhe defeso, dentro da SEP, qualquer manifestação de caráter político, religioso ou de discriminação.”.

Essa regra está acima dos homens e de conveniências personalistas. E é por ela que a instituição se norteia, respeitando as autoridades de nossa nação (e de qualquer outra) que por ventura se sintam inclinadas com os nossos valores e história, não o contrário.

O Palmeiras é um sentimento de todos. Nada nem ninguém irá macular ou diminuir nossas Glórias e Conquistas, que por mais de 100 anos é fruto da luta e união de milhões de abnegados de todos os credos, raças e etnias.

Tudo isso no mesmo palco, o gramado do imortal estádio Palestra Itália, que meses atrás recebia o músico Roger Waters com a sua mensagem de #EleNão. Tudo de modo pacífico, democrático, tolerante e laico. Nem oito, nem oitenta.

“Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”.