Opinião: Encontro com a realidade

Por Vicente Criscio

Senta que lá vem DR. E texto longo.

Há derrotas que merecem ser analisadas. Não falo apenas da derrota dentro de campo. Uma partida de futebol envolve 11 contra 11 e tudo pode acontecer, mesmo quando há uma teórica superioridade de um time.

E acho que batemos de frente com a dura realidade…

A eliminação da Libertadores para o Grêmio na última 3a feira foi um duro golpe nas pretensões dos palmeirenses. Campeão duas vezes nos três últimos anos do Brasileiro (e de quebra um vice-campeonato), a maioria dos palmeirenses que eu conheço queriam e muito disputar a final dia 23 de novembro em Santiago.

E o que deu errado… de novo?

Analisando a 30 mil pés

Infelizmente para nós, só podemos analisar de longe. Não sabemos o que se passa nos vestiários, nos treinos, na concentração, nas viagens. Então vamos lá.

Olhando daqui do alto o Palmeiras se preparou. Contratou. Gastou e muito. E manteve a base campeã brasileira em 2018 e semi finalista da Libertadores do mesmo ano. Lembrando que perdemos a vaga em fatídicos 5 minutos no final do jogo na Bombonera.

Com isso e com os números sempre superlativos do clube (patrocínio, Allianz, contrato com Globo), todos – imprensa esportiva, torcedores rivais, e mesmo a diretoria, elenco e comissão técnica – reconheciam que o Palmeiras era favorito em todas as competições do ano. Principalmente na Libertadores, onde Luiz Felipe Scolari mantém sempre o time considerado “titular”.

Até a Copa América, tudo parecia lindo e maravilhoso. O “plano” traçado ia bem. Uma campanha invejável no Brasileiro, apenas uma derrota na Libertadores (e a melhor campanha da fase classificatória garantida) e o céu azul e oceano tranquilo permitiam que nosso brilhante barco verde e branco nagevasse em águas calmas.

Mas no meio do caminho tinha uma pedra… ou várias…

Choque de realidade

Apesar dos números positivos, alguns palmeirenses se incomodavam muito com a aparente falta de repertório do time dirigido por Felipão. Na prática, antes da parada da Copa América, tínhamos tido poucos confrontos mais duros (o Santos foi goleado numa tarde de sábado feliz de nossa equipe e infeliz de Sampaoli).

Mas quem conhecia um pouquinho de futebol via nossas carências.
Uma incrível dificuldade no ataque, nosso calcanhar de aquiles, nosso queixo de vidro. Deyverson – que caiu nas graças de um Felipão cada vez mais paizão e menos técnico – era o preferido para ser titular. Uma contradição num elenco milionário. Scarpa, Borja, Lucas Lima, Bruno Henrique, Dudu, Felipe Melo, Gómez, além dos reforços (?!) Carlos Eduardo, Arthur Cabral, Zé Rafael, Felipe Pires, Matheus Fernandes, Goulart … esqueci alguém?

Contratações aconteceram no intervalo. Ramires, com problemas físicos. Dourado, que não sabemos como está. Luiz Adriano, esse sim, parece bom jogador, contratado a peso de ouro. Victor Hugo, retornando da Europa.

E voltamos da Copa América. E o choque. Eliminação para o Internacional, um time limitadíssimo, apenas com aplicação tática. Perdemos a classificação no Allianz, numa riquíssima Copa do Brasil, nas 4as de final, quando podíamos ter feiro 2 ou 3 gols de diferença. E o atacante de milhões de euros (sim, Deyverson) perdeu todas as chances de contra-ataque.

Derrota para Ceará, empates em casa contra Vasco e Bahia. A perda da liderança no Brasileiro. Um cheiro ruim no ar.

A vitória no jogo de ida contra o Grêmio na 1a partida foi um alento. E os mais entusiastas – eu inclusive – levantaram as mãos pro céu e disseram: ufa, já passou.

Mal sabíamos…

A derrota pro Grêmio na 3a feira, como disse no início desse artigo catártico tem muitas lições.

O pior cego…

… é aquele que não quer ver. Já dizia o ditado.

Planejamento (se é que houve) péssimo.

Aliás, temos uma diretoria de planejamento. Não sabemos exatamente o que entrega. Mas voltando ao tópico…

Enquanto contratávamos Carlos Eduardo por 26 milhões de reais, Goulart que veio e foi, Arthur Cabral para depois emprestar, e até um jovem colombiano da base de lá, os adversários se reforçavam de verdade. Não preciso citar. Basta ver. (aliás o não aproveitamento da nossa decantada em verso e prosa base, aliado à vinda de Angulo daria outro post catártico….).

Mais: como um “novo rico” da “high society” descartamos ofertas milionárias por jogadores que definitivamente não deram certo da SEP: falo de Deyverson e Borja.

Quem paga essa conta?

Fomos eliminados pelo Inter na Copa do Brasil. Não conseguimos ganhar de Vasco e Bahia em casa (provando que não temos dois times como muitos falam). Perdemos do Ceará fora. Fomos eliminados da Libertadores “obsessão” por um elenco que deve custar metade do que custa o nosso.

Dinheiro não traz felicidade. E no Palmeiras, nem manda buscar. Pelo menos não para o palmeirense torcedor.

O que fazer?

Em uma coluna de Opinião, eu sempre dou a chance de estar errado. Portanto posso estar redondamente enganado no meu diagnóstico.

Não vou cais na vala comum de alguns e usar o argumento político. Isso é bobagem. Ou oportunismo. Se é que vocês me entendem. Quem nunca deu as caras, aparecer agora pra falar da política do Palmeiras, é no mínimo oportunista. Pra ser politicamente correto.

De qualquer forma, onde eu estava? Sim, no diagnóstico. Já foi mais ou menos dado. Me atenho nos temas técnicos, de processo e gestão. Planejamento (se é que existiu) desastroso. Contratações erradas. Excesso de soberba. Gastou-se muito em jogadores pra lá de duvidosos. Alguns casos mereceriam inclusive uma análise mais profunda com apuração de responsabilidades. Então o responsável tem nome e endereço certo. Alexandre Mattos. Excesso de poder! Não é de hoje. Vem de longa data. Mas uma hora a paciência (e tolerância) tem que acabar.

Para mim e para muitos outros palmeirenses, acabou.

Mattos deveria ter perdido o emprego na 4a feira logo pela manhã. Está provado que se esgotou seu modelo. Pode ir. Acabou. Contratações erradas, contratos de 4 anos com jogadores que nunca deveriam vestir a camisa do Palmeiras. Eliminação pífia em duas competições importantíssimas somente esse ano. Se fosse mandado embora na 3a feira depois da meia noite teria poupado o palmeirense da absurda, constrangedora e vazia coletiva da 5a feira. Aliás, o Palmeiras tem assessoria de imprensa? Ou ela também se reporta a Alexandre Mattos?

Esse modelo onde um gerente de futebol remunerado manda em tudo, em um clube onde ainda não há governança estabelecida, está errado! Venho falando aqui no 3VV desde 2014: não existe profissionalização num clube de futebol sem governança. E nossa governança é pobre. Carece de práticas, ferramentas e principalmente um poder descentralizado. E sem políticos influenciando, per piacere….

Quem me acompanha, sabe que defendo cada vez mais profissionais e menos políticos decidindo na SEP. Mas tem que haver uma estrutura e um modelo de gestão onde os profissionais decidem baseados em regras.

E esses profissionais deveriam se reportar a um órgão maior, o tal “Board” (na uso a palavra Conselho para não confundir com o atual Conselho Deliberativo, que infelizmente não tem estrutura para qualquer tipo de discussão produtiva sobre o futebol; e o COF não tem condições para isso ). Qualquer modelo onde apenas uma pessoa decide tudo (nesse caso, o Mattos) está errado. E já estava errado em 2018, 2017, 2016, …. apenas as vitórias encobriam isso. Então que pelo menos essa amarga eliminação sirva para a saída desse profissional e para a mudança do modelo.

Já!

Um modelo de gestão do futebol, com planejamento de verdade – no Palmeiras nunca vi nem comi eu só ouço falar – integrando de verdade as categorias de base. Com Governança. Com contratações baseadas em critérios técnicos e com mais profissionais opinando e ajudando na decisão. Isso falta ao Palmeiras. Principalmente quando o dinheiro parece dar em árvore (até porque, não dá!).

Ah, e antes que alguém pergunte, eu respondo: a patrocinadora nada tem a ver com a permanência de Mattos! Não é dela a decisão, como alguns acusam. Isso eu posso falar. A decisão é monocrática do Presidente da SEP.

Logo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, num modelo desses, se o gerente de futebol remunerado não funciona e fracassa, ele é o responsável. Mas carrega o Presidente junto. Logo, a caneta do Presidente deveria funcionar nesse momento.

E sobre o treinador?

Pois é… tema difícil. Até porque sou fã de Felipão.

Merece uma estátua pelos serviços prestados e títulos conquistados na SEP. Foi importantíssimo em 2018. É um treinador que enfrenta todos os problemas sozinho. Imprensa, arbitragem, federação, adversários, políticos de plantão da SEP. Um profissinal que merece todo nosso respeito.

Para um presidente de qualquer clube, é fácil optar pelo Felipâo. Foi útil para Mattos e para o Presidente quando retornou em 2018. Felipão era a escolha mais segura depois de trocar de treinador tantas vezes (remember Eduardo Baptista, Rover Machado, Valentim, Cuca…). E deu certo naquele momento, pelo menos no Brasileirão 2018.

Mas parece ter perdido o prazo de validade. Seu modelo parece que também se esgotou. Família Scolari precisa ter mais cérebro e menos coração.

Mas eu não traria nenhum treinador da velha geração. Mano, Luxa, Abel, qualquer um desses, por favor fiquem longe da SEP. Traria um sangue novo. Talvez estrangeiro. Ou mesmo brasileiro. Mas para um projeto de longo prazo.

O problema: quem tem paciência na SEP (políticos de plantão, presidente sob pressão, torcedores organizados ou desorganizados) para esperar um treinador novo fazer sucesso? o que acontecerá quando for eliminado em uma competição? quantas trombetas tocarão?

Tema para outro artigo…. talvez mais longo do que esse.

Neste domingo, contra o Flamengo, uma derrota fará todos esses pesadelos florescerem. Uma vitória poderá mascarar um problema sério na gestão do futebol da SEP. E isso seria apenas adiar mais uma vez o encontro com a realidade.

Saudações Alviverdes!

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