Opinião: seja quente ou seja frio, não seja morno

Opinião: seja quente ou seja frio, não seja morno

setembro 6, 2021 11 Modelos de Gestão, Opinião

Por Vicente Criscio 

Quando hoje analisamos o desempenho de Abel Ferreira à frente do Palmeiras, os mais críticos ao português juntam os pedaços do curto prazo e criam seu diagnóstico e prognóstico. Algumas críticas parecem ser justas – erros na escalação e substituições, excesso de nervosismo à beira do campo. Óbvio que para quem está do lado de fora parece mais fácil criticar, e nem sempre sabe tudo que acontece dentro do vestiário. 

Entretanto, em uma análise mais profunda, me parece que o maior problema não está no português: está alguns degraus acima dele.

Abel Ferreira, campeão da Libertadores 2020, 90 dias após assumir o Palmeiras, e da Copa do Brasil logo depois, deixou claro as limitações desse elenco e abertamente pediu reforços, mais de uma vez. A resposta na mídia por parte do Presidente é que “é responsável pelo equilíbrio administrativo, financeiro e esportivo”. Pena não ter pensado assim quando deixou Mattos torrar o orçamento com contratações caras e ruins.

Equilíbrio financeiro…. já vimos isso no passado. Mas aqui não cobramos gastos desenfreados. Até porque essa foi a receita que o próprio mandatário adotou nos idos de 2017 a 2019. Com muita indecisão, idas e vindas, aparentando uma completa falta de planejamento e orientação. 

Senão vejamos.

O ano de 2017 começou com Eduardo Baptista substituindo Cuca, que retornou no meio do ano – sinal de falta de plano ou criatividade? – mas não aguentou o tranco e também saiu. Veio Roger Machado que foi mandado embora no meio do caminho em 2018 até que – novamente, sem criatividade – fomos de Scolari. Ganhamos o Brasileiro de 2018 mas Scolari também não foi até o fim do contrato e saiu em 2019. No Rio de Janeiro o rival – mesmo depois de começar o ano com o trágico acidente dos meninos no container – trocou Abel Braga pelo Português Jorge Jesus e começava a mostrar a força do seu elenco. Atropelou no Brasileiro e de quebra o Santos com Sampaoli – e muitos garotos – terminou como vice-campeão da temporada 2019. 

Nas Alamedas, o Presidente – tentando imitar o rival do Rio de Janeiro – montou um grupo gestor do futebol (apelidado carinhosamente pelos aliados de “Turma da Vila Romana”) e trouxe Mano Menezes. Fracasso mais que previsível. Vinte partidas depois, Mano era mandado embora e anunciava-se uma modernização na direção do futebol. Passou-se vergonha tentando contratar Sampaoli e terminamos com Luxemburgo. Foi campeão paulista nos pênaltis contra o Corinthians mas jogando um futebol digno de seu final de carreira como treinador. Logo perdeu o emprego.

Como a moda no Brasil era treinador estrangeiro, Miguel Angel Ramirez era o nome cotado, mas após algum tempo de negociação, o espanhol declinou a proposta. Encontraram – por um feliz acidente – Abel Ferreira, que no final de outubro de 2020, foi contratado.

Abel, um treinador que dizia-se acostumado a trabalhar com jogadores da base, era a pessoa certa para um clube que tinha gastado excessiva e equivocadamente entre 2017 e 2019. Articulado, inteligente, sem tempo para treinar, agarrou a oportunidade e trouxe o tão esperado BI da Libertadores. E logo depois, uma Copa do Brasil jogando muito bem as duas partidas contra o Grêmio.

Galliote parece que assim, com esses dois títulos, se sentiu com a missão cumprida. Não demonstra ousadia e agressividade para deixar o time à altura de seus rivais neste ano de 2021. Não contrata, não fortalece o elenco, apesar das demandas de seu treinador. Justifica isso com a questão financeira, como se o Palmeiras não tivesse capacidade de geração de mais receita através dos seus ativos (torcedores, marca, atual campeão da Libertadores). 

Ao lado, os rivais – alguns com problemas financeiros muito mais graves do que os do Palmeiras – parecem ter a ousadia e a confiança que nos falta. Óbvio – como disse acima, despesa sem geração de receita é irresponsabilidade. Por outro lado, Flamengo, Atlético, SPFC e Corinthians estão investindo, talvez com estratégias e apostas diferentes. Mas acharam caminhos.

O leitor poderia perguntar: ok, falta ousadia, mas o que fazer? O que um presidente de um clube como o Palmeiras deveria fazer?

No comando da SEP há cinco anos, além de outros quatro como vice-presidente, Maurício Galliote não é apenas um gestor de contratações. É responsável também por criar novas fontes de receitas para bancar o crescimento natural das despesas e do reforço ao time. Nossos problemas financeiros, ao contrário do que querem nos fazer acreditar, não começaram em 2020 com a pandemia. Aconteceram nos idos de 2017 a 2019 com contratações ruins e caras, contratos de longo prazo com jogadores que não se pagavam. O Avanti, a aposta anterior, mostrou que tinha suas fragilidades (aí sim, com efeito direto do COVID) mas essa perda de receita já ocorria em 2019 como consequência do fraco desempenho esportivo naquele ano.

E assim chegamos ao hoje. O time que era a maior receita do futebol brasileiro em 2017-2018 hoje briga para equilibrar seu caixa operacional e sua dívida. Cinco anos depois de assumir o clube, com um passivo batendo na casa dos R$ 766 milhões – dados do final de 2020 – esse cenário NÃO é fruto apenas de erros de contratações – Deyverson entre eles, mas não o único – e excesso de troca de treinadores: é também resultado da inoperância e incapacidade para planejar ações de marketing (o rival acabou de fazer uma no mundo da criptomoeda), de implementar ações de geração de receitas a partir de nossa base de torcedores (há mais de três anos o marketing investe em ferramentas de relacionamento com o torcedor e internalização da operação do Avanti, com resultados pífios), buscar iniciativas no mundo digital e nem mesmo o feijão com arroz, ou seja, trazer novos patrocinadores para outras propriedades do clube. 

E a cereja do bolo: o Sr. Maurício foi incapaz em cinco anos de projetar e implementar um memorial, do tamanho da nossa história e rentabilizar com parceiros de negócios ou mesmo turistas de outras regiões e países. Colocou nossa história centenária dentro de uma “sala de troféus”. Sentiram tanta vergonha que rapidamente disseram que era “temporária”. Após 5 anos, implementar algo tão anacrônico e “temporário” quanto uma sala de troféus, deveria ser considerado crime lesa-pátria palmeirense.

E por que o Presidente não fez seu papel em buscar maiores receitas para compensar gastos errados e corrigir a rota? Falta de criatividade? Falta de projetos de marketing? Falta de planos? Falta de capacidade?

A resposta parece ser o conjunto dessa obra. Nesse período Maurício Galliote parece ter assumido a Crefisa-dependência e esqueceu de ativar outras propriedades de marketing. Esqueceu de buscar mais parceiros de negócios. Com o risco de ser repetitivo: falta ousadia, falta criatividade, faltam ideias. Falta preparo. Falta visão estratégica condizente com o tamanho do negócio que o futebol se tornou. 

Nosso presidente levará esse discurso de “falta de dinheiro” e “equilíbrio financeiro” até o final deste arrastado ano de 2021. Curiosamente justifica que precisa equilibrar aquilo que ele mesmo desequilibrou nesses últimos anos. Ao palmeirense restará novamente  contar com a competência do nosso treinador e o algo a mais que o time terá que dar para vencermos adversários que tiveram a coragem para investir e/ou manter seu elenco. 

Como aprendemos em Apocalipse 3:15-16, o discurso não é frio nem quente. É morno, e assim estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. 

Saudações Alviverdes!

*Vicente Criscio é também colunista do 3VV. Sua opinião aqui nessa coluna não necessariamente coincide com a opinião de outros colaboradores do site.

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11 comentários em “Opinião: seja quente ou seja frio, não seja morno

  • MARIO LUIZ SALVONI
    setembro 8, 2021
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    • Diogo Belotto
      setembro 9, 2021
      Responder
  • Eduardo
    setembro 7, 2021
    Responder
    • 3vvAdmin
      setembro 8, 2021
      Responder
      • Eduardo
        setembro 9, 2021
        Responder
        • 3vvAdmin
          setembro 10, 2021
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  • Claudio Longo
    setembro 6, 2021
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    • Lito
      setembro 7, 2021
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  • Donato, o Lúcido
    setembro 6, 2021
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  • Alberto Cunio
    setembro 6, 2021
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  • Oiti Cipriani
    setembro 6, 2021
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