Abel Ferreira repete Felipão como o ‘ogro que amamos odiar’

Créditos: Cesar Greco

Abel Ferreira repete Felipão como o ‘ogro que amamos odiar’

setembro 30, 2021 12 Libertadores 2021, Notícias

Abel Ferreira é um estrategista visionário ou retranqueiro que descobriu o ‘jogar por uma bola’? (FOTO: CESAR GRECO/PALMEIRAS)

Por Marcelo Moreira

Não havia personagem mais odiado pela torcida do Palmeiras do que aquele gaúcho truculento que mandava seus volantes e zagueiros arrebentarem os craques Válber, Rivaldo e companhia naqueles anos gloriosos e também difíceis.

O Grêmio decidiu que iria ganhar na marra a vaga nas semifinais da Libertadores de 1995 e tinha a cara e o perfil de Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Era um time raçudo, que fazia gols com Jardel, um caneludo artilheiro, e batia com um volante carniceiro chamado Dinho.

Com expulsões e pancadarias, o Grêmio fez 5 a 0 na ida e tomou de 5 a 1 na volta. Ganharia aquela edição do torneio e perderia o Mundial nos pênaltis para o Ajax.

O Palmeiras já tinha eliminado o Grêmio da Copa do Brasil, mas seria eliminado em 1996 no Campeonato Brasileiro, que também seria vencido pelos gaúchos. E Felipão ria de nossa cara.

Não foram poucos os que odiaram a sua contratação em 1997. O Palmeiras da Parmalat e dos 100 gols agora jogaria feio e na retranca? Sim, jogaria dessa forma e em seis meses seria vice-campeão brasileiro, em uma final péssima, com a cara de Felipão, com dois 0 a 0 que premiou o Vasco.

Felipão tretou com todos, de torcedores a jornalistas, criava frases de efeito e desdenhava das críticas. Achava-se acima do bem e do mal, com certa razão depois de vencer a Copa do Brasil, a Mercosul e a Libertadores de 1999. Achava-se um Deus. E então os palmeirenses nunca tinham sido tão felizes.

Abel Ferreira tem um carinho enorme por Felipão. Este o chamou para integrar a seleção portuguesa por um breve momento. Aquele herdou, de certa forma, o temperamento mercurial e a incapacidade entender as críticas e o que significa treinar o Palmeiras que já foi Academia.

Nós, palmeirenses, ficamos desacostumados com a falta de tato, de refinamento e da bola maltratada. Ficamos desacostumados com os chutões e e com as retrancas. E também com a distribuição de coices de um treinador que não gosta de ser cobrado por vizinhos e por jornalistas que não sabem muito de bola, e também pelos que sabem bastante.

Nos desabafos de Abel, sobram desaforos e raquetadas, dadas com arrogância e também com virulência que não combina com o europeu aparentemente culto e erudito das primeiras semanas de trabalho em São Paulo.

Dez meses depois, Abel Ferreira emula Felipão dos anos 90 e encarna o ogro que amamos odiar. Assim como Felipão, ganha de forma pragmática e deixa o bom futebol de lado.

Ao chegar à segunda final consecutiva de Libertadores, e no mesmo ano, julga-se no direito de querer “ensinar futebol” na terra do penta, de bater no peito e de dizer que “estudou futebol por dez anos”, insinuando que a ignorância campeia no futebol brasileiro. Ousado e boquirroto, nem Felipão faria melhor neste quesito.

Felipão foi contestado até o fim de sua primeira passagem pelo Palmeiras. Seu pragmatismo técnico e pouco apelo à técnica o perseguiram até Tóquio, quando a equipe perdeu do Manchester United, sendo que merecer.

Foi criticado até mesmo no 4 a 0 que deu o título da Copa Rio-São Paulo, contra o Vasco, e pelo futebol sem brilho e sem criatividade na final da Libertadores contra o Boca Juniors, ambos em 2000.

A sina persegue agora Abel, que parece, por sua vez, seguir os passos de Felipão. Vitorioso, mas contestado. Contestado, mas vitorioso.

Não vai conseguir calar os críticos e a “turma do amendoim”, mas erode a cada avanço os argumentos de quem o vê como um técnico limitado e retranqueiro, incapaz de fazer um time mediano, mas com bons jogadores, atuar com um mínimo de qualidade.

Não é um incapaz, mas está longe da genialidade que muitos lhe atribuem e que, em alguns momentos, acredita bastante nesta “atribuição”. Assim como Felipão, é inteligente e até mais culto, mas também repete erros e, aparentemente, ouve pouco as críticas, reproduzindo um comportamento de outro inspirador, conterrâneo José Mourinho, hoje na Roma.

Aferrado a suas convicções, Abel Ferreira encanta e enfeitiça os admiradores, e irrita cada vez mais os detratores. O vizinho chato que questiona a sua capacidade se junta a vários jornalistas que não se conformam com o futebol anêmico, mas estratégico, do Palmeiras vencedor.

A eficiência incomoda, e ele sabe disso. Só que o mau futebol e o pragmatismo que quase põe tudo a perder também. Felipão jogou por uma bola contra o Deportivo Cali, na Colômbia, em 1999. Perdeu de 1 a 0 quando o adversário merecia sorte melhor.

O zagueiro Júnior Baiano entrou nos vestiários gritando que o Palmeiras já era campeão e que não teria dificuldades no Parque Antártica. O título só veio nos pênaltis e graças ao péssimo chute de Zapata, que mandou para fora.

O “jogar por uma bola” ficou na dependência de uma cobrança de pênalti ruim e à mercê de um zagueiro irresponsável – o mesmo Júnior Baiano, que fez um pênalti absurdo no tempo normal.

Abel Ferreira inventou também de “jogar por uma bola” contra o Atlético-MG e fez o Palmeiras jogar como time pequeno no primeiro jogo – e ainda assim ficou na oração pelo pênalti perdido por Hulk. No segundo jogo, com o time perdendo, contou com o sobrenatural gol perdido por um chileno afobado.

Jogar por uma bola não depende do desígnios do mister. Não dá para contar sempre com a falha de um zagueiro adversário que cai bisonhamente na corrida ao lado de um garoto de 19 anos e com a pane geral da melhor defesa do país. Quando sempre jogou por apenas uma bola, o Palmeiras sofreu e nem sempre se deu bem. Gignac e o mexicanos do Tigres que o digam.

O título da Libertadores 2021 vai catapultar o português para as alturas e transformá-lo em deus, com razão até certo ponto. O pragmatismo dele vai levar às lágrimas os tolos que vomitaram que a classificação do Palmeiras foi a derrota do futebol, como fez um conhecido radialista de São Paulo.

Os limites entre a bestialidade e a genialidade são tênues e nem Felipão escapa das flechadas, principalmente depois do 7 a 1 alemão. Abel vai ter de aprender, na marra, que não basta apenas “jogar por uma bola” e bolar uma estratégia miraculosa que dependa da imperícia do adversário diante do pênalti ou de um estabanado zagueiro gringo que se acha xerife e a encarnação de Luís Pereira que não acerte a canela do atacante na área.

Precisamos e queremos bem mais do que isso, até para que possamos nos convencer que temos time para ganhar na bola sem correr riscos maiores do que os normais – e para não ter de depender de uma cabeçada quase aleatória de um atacante desconhecido e improvável originada de um lançamento improvável de um atacante fora de lugar.

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12 comentários em “Abel Ferreira repete Felipão como o ‘ogro que amamos odiar’

  • Redacao
    outubro 1, 2021
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  • Daniel oliveira
    outubro 1, 2021
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  • lito
    outubro 1, 2021
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  • Donato, o Lúcido
    outubro 1, 2021
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  • DONATO, o Lúcido
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  • Donato, o Lúcido
    outubro 1, 2021
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  • Donato, o Lúcido
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    outubro 1, 2021
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  • Donato, o Lúcido
    outubro 1, 2021
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  • Donato, o Lúcido
    outubro 1, 2021
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  • lito
    setembro 30, 2021
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  • MARIO LUIZ SALVONI
    setembro 30, 2021
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