Somos a torcida do Palmeiras

Somos a torcida do Palmeiras

outubro 8, 2021 19 Notícias, Opinião

Por Erika Gimenez

Há muito tempo, numa galáxia muito distante, palmeirenses apaixonados lotavam seu estádio para empurrar o time. Bem, talvez não faça tanto tempo assim e, para falar a verdade, era aqui mesmo, no planeta Terra.

Algumas coisas, porém, eram bem diferentes. A rua se chamava Turiaçu. E não, não era no Allianz Parque que os jogos aconteciam – naquele tempo, o nome ainda era Palestra Italia, conhecido também como Parque Antártica por alguns. Nele, ficávamos em pé ou sentados na arquibancada de cimento. O campo ficava elevado e havia um fosso entre a torcida e o gramado. Parecia um palco. Em ocasiões especiais, como em 1999, aquele campo transformou-se num verdadeiro altar. Não era uma Arena, mas era um lindo Jardim Suspenso.

Eram dias estranhos em que as coisas não iam bem no nosso Verdão. Infelizmente, depois de meteórica subida, estávamos vivendo a parte da vertigem descendente e turbulenta da montanha-russa. Era 2002. Não existia Whatsapp, nem Twitter, nem Instagram. A Apple, que vendia só computadores, tinha acabado de lançar um revolucionário gadget: o iPod, veja só. Nada de smartphones ainda. Nesse tempo tão longe e tão perto, uma tragédia nos abateu num triste domingo de novembro. Dói demais lembrar, mas aconteceu há quase duas décadas.

No ano seguinte, todos os jogos disputados no nosso campo tiveram as arquibancadas tomadas. Lá, no nosso Jardim Suspenso, no nosso Palestra, carregamos o time no colo, cantando e vibrando incansavelmente. Transbordávamos paixão e por ela sobrevivemos, a torcida e o time, juntos. Tínhamos todos os problemas imagináveis. Estávamos com o orgulho ferido ao extremo. Não conseguíamos entender como pudemos chegar ali. Mas tivemos dignidade, respeito, honra. Jogo a jogo, seguimos em frente, avante. Cantávamos, pulávamos, gritávamos. Não era muita coisa para comemorar, na verdade estávamos nos apoiando, time e torcida. Incentivávamos uns aos outros. Até a corneta foi branda… Precisávamos de força. E reencontramos nosso caminho.

Dez anos depois, o mesmo roteiro de terror se repetiu. Dessa vez, estávamos sem casa, ainda em obras desde 2010. Muitos dos nossos jogos aconteceram no Pacaembu, e lá estávamos nós novamente, os palmeirenses apaixonados. Cantando e vibrando incansavelmente. E dessa vez eu tinha como companhia um menino de sete anos, meu filho. Juntos, comemoramos muitos gols, muitas vitórias. Com dignidade, novamente voltamos ao nosso lugar. E meu filho era o único da escola que sabia cantar o hino do time dele de cor – os pais dos coleguinhas, desesperados, reclamavam para mim que não estavam mais tendo controle sobre a torcida de suas crianças.

O nome disso é paixão. É identificação. O nome disso é Palmeiras. E o Palmeiras escolhe seu torcedor, esse eterno apaixonado, que briga, corneta ao extremo, perde a cabeça, fala demais, se desespera, sofre, chora e ri ao mesmo tempo, grita e se cala na sequência. O palmeirense não é leve, não consegue. O palmeirense é intenso ao extremo, passional demais. Porque é palmeirense.

Ele pode ter sido o operário italiano no passado, e hoje é o intenso e passional índio, nordestino, mulato, caipira, rondoniense, carioca, paulista, paulistano, brasileiro de todo rincão, palmeirense de todo canto do mundo, que faz da camisa verde e branca sua pátria, acima de todas as diferenças (que hoje são tantas!), seja em Dublin, Braga, Sidney, Hamburgo, Goa, Tóquio, Nova Iorque.  E se todas essas características lembram alguém, de fato elas remetem, sim, a um homem que não cruzou o oceano para passar férias, que é obstinado pelo trabalho, que chuta copos d’água à beira do campo, que comemora em êxtase, que briga com sangue nos olhos pela arbitragem ruim como se fosse um de nós, que se destempera e bota a culpa num vizinho expiatório: Abel Ferreira, nosso técnico, que em pouco tempo conseguiu trazer para o Palmeiras conquistas inestimáveis, eternas. Abel, que nasceu palmeirense e não sabia. Abel, que erra, claro, e, também, acerta, inegavelmente. E que pode ainda amadurecer muito, tendo a chance de nos dar, quem sabe, outras taças gloriosas e marcar com mais intensidade seu nome em nossa história.

E por que rememorar tempos obscuros e relacioná-los com Abel? Porque sábado, depois de longos dezenove meses, teremos, finalmente, um jogo com torcida no Allianz Parque. Abel terá a oportunidade de nos olhar nos olhos. Ele já teve algumas breves experiências com a torcida em número muito pequeno – quem não se lembra todos os dias do Maracanã em 30 de janeiro de 2021? Mas nenhuma na nossa casa.

Com a volta do público aos estádios, teremos a oportunidade que aguardávamos tanto. Estaremos lá, cantando e vibrando, num momento anos luz distante das duas lastimáveis ocasiões aqui lembradas. Estaremos lá já tendo levantado duas taças nesse ano de 2021.

A intenção de trazer à lembrança os fantasmas que nos espreitam atrás da porta num passado não muito distante é manter vivas na memória as situações que já experimentamos e valorizar o que vivemos hoje. Está bom? É o suficiente para o Palmeiras? Não, nunca. Queremos e podemos mais, muito mais. Como iremos buscar esse algo mais é o que importa. Que não seja como já foi e que nos levou para onde nunca deveríamos ter ido: sem projeto, sem ambição, sem noção do nosso potencial, com metas a curto prazo e gestão cega. E que não pensem que mudanças superficiais nos guiarão a grandes conquistas. Para sermos protagonistas, a mudança a ser feita é estrutural e de mentalidade. Precisamos da urgente e obrigatória transformação conceitual. Por ora, teremos, enfim, a oportunidade de torcer com Abel. Chegou o tão esperado e merecido momento. Finalmente seremos apresentados na nossa casa, do nosso jeito, intenso e com paixão.

Prazer, Abel, nós somos a torcida do Palmeiras.

***

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19 comentários em “Somos a torcida do Palmeiras

  • Danilo
    outubro 8, 2021
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  • Corneta 3VV
    outubro 8, 2021
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  • Antonio Blanes
    outubro 8, 2021
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  • Roberval Maimone
    outubro 8, 2021
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  • RicardoGni
    outubro 8, 2021
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  • Donato, o Lúcido
    outubro 8, 2021
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  • wagner gimenez
    outubro 8, 2021
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  • Valter
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  • Roger Lourenço
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  • Fabio Sgambato
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  • Debora Borghi
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  • Regina Rodrigues
    outubro 8, 2021
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  • Emerson PRebianchi
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  • Jota
    outubro 8, 2021
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    • Samuel
      outubro 8, 2021
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  • Marco Antonio Cascino
    outubro 8, 2021
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