O clube-empresa pode ser a salvação, mas também a perdição

O clube-empresa pode ser a salvação, mas também a perdição

janeiro 8, 2022 0 Notícias

Cruzeiro já foi vendido (FOTO: DIVULGAÇÃO/MINEIRÃO)

Por Marcelo Moreira

Um dos times mais antigos do mundo, tradicional e outrora rico, que protagoniza o maior de todos os clássicos, gasta mais do que arrecada para interromper a série de vitórias do maior rival – que usa a cor verde -, mas sem sucesso. As dívidas se acumulam e a Justiça não tem dó: decreta unilateralmente a falência do time e o rebaixa à quarta divisão.

Como se sentiram os torcedores do Glasgow Rangers, da Escócia, quando essa tragédia ocorreu? “O mundo acabou e deixou de existir até que a equipe voltasse pra a primeira divisão, o que demorou mais do que o esperado. Não existe futebol fora da primeira divisão”, escreveu nas redes sociais um torcedor chamado James Wilcox, um missionário escocês que morou por anos no sul da Bahia.

O gigante escocês não conseguiu escapar de 30 anos de falcatruas e sonegação de impostos e acabou punido com o rebaixamento automático na temporada 2012/2013 e até hoje pena com as pesadas dívidas do passado.

É o atual campeão escocês depois de nove títulos seguidos do rival Celtic, o time verde e branco do país, mas ainda falta muito para voltar ao menos o que era nos anos 2000.

Como o torcedor brasileiro encararia uma falência de seu time grande, transformado em clube-empresa, jogando-o para a quarta divisão por conta de dívidas e fraudes financeiras?

Essa é uma pergunta que muitos fazer com o surgimento de dois gigantes brasileiros, mas falidos, como clubes-empresas. O que ocorrerá com Cruzeiro, Botafogo e também o Coritiba, agora que são SAF (Sociedade Autônoma de Futebol) caso afundem como o Rangers?

Serão punidos apenas financeiramente ou terão de ir para a série D? Ou conseguirão virar a mesa, como Fluminense, que chegou á série C mas não passou pela B quando da maldita Copa João Havelange (dirigente que morreu aos quase 100 anos banido do futebol acusado de muita corrupção).

Tudo é muito novo e confuso. Os torcedores acham que pode ser a salvação do futebol, quando, na verdade, pode ser exatamente o contrário. Se a bandalheira campeia de todas as formas no esquema de clube associativo, imaginemos então “os dribles” que os espertos do “jeitinho brasileiro” não querer dar…

O Avaí, de Florianópolis (SC), acabou de voltar para a série A do Brasileiro, mas corre o risco de ficar na série B por conta de denúncias de ex-jogadores que têm salários atrasados em 2021.

Dirigentes e torcedores de clubes das séries A e B na mesma situação protestam contra essa “possibilidade”, com medo de que sejam punidos da mesma forma, o seja, o fantasma da virada de mesa volta a assombrar o desacreditado (em muitos aspectos) futebol brasileiro.

Time de futebol profissional que atrasa salários não merece existir. É amador e tem de jogar na várzea. As denúncias de ex-jogadores do Avaí são gravíssimas e precisam ser investigadas e, se comprovadas, provocar punições fortíssimas em âmbito esportivo e cível.

Um bom resumo do que é a SAF no cenário atual pode ser lido aqui. Entretanto, na questão das punições esportivas, há um vácuo gigante que causa muitas dúvidas e, no caso dos espertalhões, um buraco jurídico que vai permitir “soluções mágicas” para evitar rebaixamentos automáticos, o que é um absurdo gigantesco.

Sem punições drásticas, que incluam rebaixamento para a série D ou pura e simples extinção do clube, a SAF não tem como prosperar, sempre ficando á mercê do “jeitinho brasileiro” para favorecer times supostamente grandes,

Se avançamos muito com o fim das viradas de mesa, a ponto de Vasco e Cruzeiro permanecerem na série B e Corinthians e Palmeiras serem rebaixados sem chances de contestação, as brechas jurídicas da SAF podem evitar que qualquer time seja rebaixado automaticamente, caso as regras ou regulamentos prevejam (com absoluta necessidade) rebaixamentos e extinções.

As punições financeiras e esportivas para time falidos existem há décadas na Europa, mas se tornaram mais comuns na Itália, onde clubes de todos os tamanhos se costumaram com diversos tipos de falcatruas e modalidade de corrupção.

Parma, Napoli e Fiorentina são apenas alguns dos times punidos após falirem, enquanto que os gigantes Milan e Juventus foram rebaixados após envolvimento profundo com escândalos de corrupção na arbitragem e fraudes financeiras. Se a tradição italiana de corrupção generalizada é famosa, a de punições rigorosas e pesadas também é.

Para se ter ideia, sete dos 20 times que disputam a 1ª divisão italiana na atual temporada já faliram pelo menos uma vez desde a década de 1990: Bologna, Fiorentina, Napoli, Venezia, Verona, Salernitana e Torino. Em dezembro passado, o Catania teve a sua falência decretada.

”A Itália tem regras, uma espécie de fair play financeiro, que são muito rígidas em relação a pagamento de dívidas. Os clubes não podem conviver com atrasos salariais e pendências fiscais”, explicou Cesar Grafietti ao site Ge/Globo Esporte.com. Ele vive na Itália e é especialista em gestão e finanças do esporte.

 Há cobranças mais fortes em relação a empresas do que a associações sem fins lucrativos, que dificilmente fecham as portas. É muito mais difícil, por exemplo, você exigir que essas associações paguem dívidas. Por isso, elas conseguem se manter, mesmo com situações financeiras graves”, afirma Grafietti.

Portanto, o especialista explicou de forma didática e direta como tem de funcionar, de forma ética e financeira, um clube-empresa e o sistema que vai regulá-lo. Na verdade, deveria ser assim em relação a todos os clubes de futebol e em todos os campeonatos do mundo.

A SAF é apenas um começo para uma mudança profunda de entendimento sobre como deve funcionar o futebol de maneira saudável e eficiente no Brasil.

Os obstáculos são imensos, especialmente em um tempo precisamos discutir e combater o negacionismo em vários sentidos e o orgulho da própria ignorância disseminados por várias correntes político-partidárias. Serão novos tempos, e que tenhamos a sabedoria para aceoitar e assimiar esse novo modelo de negócio no esporte.

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