O futebol, a SAF e a realidade

O futebol, a SAF e a realidade

janeiro 27, 2022 0 Futebol com Números, Notícias

Por Luis Fernando Tredinnick

“Todos nós temos a mesma capacidade de prever o futuro, ou seja, nenhuma.”
Autor desconhecido

O meio futebolístico ficou em polvorosa neste final de ano com o anúncio de que o ex-jogador, Ronaldo Fenômeno, comprou o Cruzeiro.

Com a mesma velocidade do anúncio surgiram comentários positivos, dizendo que o evento marcava uma “revolução” no futebol brasileiro, e comentários negativos na linha de que a compra era só uma maneira de se fazer algum tipo de negociata. E, sim, muita discussão sobre se o valor de R$ 400 milhões era muito ou era pouco. Há muita gente que ganha dinheiro para determinar o quanto vale uma empresa. Pergunte para os bancos.

Mas o que pouco se discutiu é que a Lei que permite a SAF, Sociedade Anônima do Futebol, tem algumas peculiaridades que parecem ser capazes de inviabilizar o modelo em si.

As peculiaridades são duas: (1) a SAF deverá pagar ao clube 20% da receita e (2) a SAF deverá pagar ao clube 50% dos dividendos. Lembrando que as dívidas continuam com o clube e esse pagamento é que deveria ser utilizado para o pagamento das dívidas.

Nota rápida para explicar os dividendos: Quando um investidor, ou dono de empresa, ou acionista possuem uma empresa a remuneração deles é feita através dos dividendos, não do lucro. O pagamento de dividendos costuma ser um percentual dos lucros, já que o restante do lucro deverá ser utilizado para investimentos e pagamentos de despesas dos próximos períodos. Às vezes dividendos ganham outros nomes, mas não precisamos entrar nesses detalhes.

Então temos um problema competitivo para a SAF. Se a SAF tem o mesmo nível de receita que os competidores, na verdade ela terá 20% a menos que é a parcela destinada para a clube original.
E aí temos um problema de retorno financeiro: já que a remuneração da empresa do Ronaldo Fenômeno tem direito a apenas 50% dos dividendos.
Observem a tabela abaixo um exemplo (simplificado) hipotético:

Nesse cenário hipotético e simplificado (não levamos em considerações os impostos, por exemplo) podemos ver que os dois clubes têm a mesma receita, porém para os dois clubes terem o mesmo lucro a SAF tem que gastar R$ 100 milhões a menos do que o seu competidor. Aqui podemos discutir se a SAF por ser mais profissionalizada poderia gastar menos e ainda assim ser tão eficiente quanto o competidor que opera nos padrões tradicionais do futebol. Eu até acredito que possa, porém ainda é cedo para podermos afirmar o quão mais eficiente a SAF pode ser. Outro ponto importante é que o Competidor deve pagar as parcelas de suas dívidas e os juros correspondentes e esse valor estaria dentro desses R$ 400 milhões de custos, enquanto a SAF no início não tem dívidas, pois essas ficaram no Cruzeiro.

E reparem que neste exemplo teremos 50% do lucro sendo destinado ao pagamento de dividendos. Então quer dizer que o Cruzeiro fica com metade desse dividendo, R$ 25 milhões, pelo sistema de partilha da Lei. Dos outros 25 milhões, 90% é da empresa do Ronaldo Fenômeno que ficou com 90% da SAF, ou seja, R$ 22,5 milhões e o Cruzeiro ficaria com outros R$ 2,5 milhões referentes aos seus 10% da SAF. Obviamente este exemplo é hipotético, porém se alguém coloca R$ 400 milhões em um clube, gostaria de gerar retorno em um período de até 10 anos, certo? O que quer dizer que ele precisa ter dividendos destinados à SAF maiores do que R$ 40 milhões por ano para o negócio valer a pena. Neste exemplo a SAF conseguiria “apenas” R$ 22,5 milhões neste ano…que precisariam ser compensadas em outros anos.

E para piorar a situação, vejam que a SAF ficou com R$ 50 milhões em caixa para investir em jogadores ou aumentar salários. O seu competidor tem o dobro deste valor disponível.

Em resumo, para o mesmo nível de receita de R$ 500 milhões e, supondo que os dois clubes tivessem lucro como esse exemplo, o Competidor teria cerca de R$ 150 milhões para gastar no futebol (lembrando que os dividendos pagos saem do futebol) o que é 30% do total da receita. Por mais que o Competidor tenha que pagar as dívidas e seja menos eficiente parece difícil competir assim, não?

Eu não sei dizer se esse modelo vai dar certo ou vai dar errado, ou mesmo se será aperfeiçoado ao longo do tempo, afinal, ninguém consegue prever o futuro mesmo (ver os jornalistas que apostaram na vitória do time do Rio em 27 de novembro de 2021).

O que é possível afirmar é que esse modelo gera uma desvantagem financeira entre as SAF e os clubes tradicionais. Resta saber se as SAF serão capazes de superar essa desvantagem ou não.

Saudações AlviVerdes

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