Passagem de Abel ‘tumultua’ o ambiente e estabelece novos parâmetros – ainda bem!

Créditos: Cesar Greco

Passagem de Abel ‘tumultua’ o ambiente e estabelece novos parâmetros – ainda bem!

março 17, 2022 1 Notícias

Abel Ferreira corre para mudar o ambiente – em todos os sentidos (FOTO: CESAR GRECO/PALMEIRAS)

Por Marcelo Moreira

Ao assinar mais um livro na noite de autógrafos na FAM nesta semana, o técnico Abel Ferreira não hesitou diante de uma pergunta na lata: como tem sido o aprendizado no Brasil?

“Intenso, dinâmico e extremamente prazeroso. é uma experiência inigualável”, respondeu o treinador ao fã que não se continha diante do ídolo. Nada mal para uma pessoa boçal e idiota, como foi definida por um ex-jornalista em atividade.

Vai demorar um pouco pata que percebamos o tamanho da influência da Ferreira no futebol brasileiro fora das quatro linhas. Se o português Jorge Jesus não deixou legado fora de campo, Abel certamente será lembrando por isso, tanto quanto pelos títulos ue ganhou pelo Palmeiras.

Esse legado nas relações fora de campo ainda precisará ser analisado, e a imprensa esportiva terá de fazer a sua análise no divã, queira ou não. O técnico palmeirense modificou as relações, e para melhor, por mais que os veteranos jornalistas que sempre souberam tudo não aceitem.

O que é visto como arrogância nada mais é do que a convicção de um trabalho bem feito. Abel Ferreira costuma saber o que diz e não hesita em deixar isso claro e apontar o dedo em direção às feridas.

Não costuma falar com jornalistas, tomar cafezinho com eles nas padarias da vida ou ligar para pedir notinhas favoráveis. Não costuma adular repórteres e não gota de ter de responder as mesmas perguntas. Não ofende, mas não deixa barato quanto a pergunta é burra.

Abusa às vezes do pedantismo, quando julga que estão passando dos limites na provocação ou na forçação de barra. Quando isso ocorre, é chamado de “colonizador”, que quer “ensinar” futebol no Brasil pentacampeão do mundo. Ok, é claro que ele ultrapassa os limites, como tem de ocorrer em um meio tão tenso quanto o futebol.

Entretanto, quando Abel ressalta que estudou dez anos para estabelecer novos padrões e tomar decisões, não quer dizer que os técnicos brasileiros são burros e ignorantes – até porque ele já perdeu bastante por aqui e viu como técnicos brazucas também sabem de futebol.

Quando ele diz que estudou muito, ressalta que a informação é fundamental para que seu trabalho flua e explica muito de suas decisões. Gosta de aplicar um racionalismo que, em certa medida, evidencia alguns resultados que a seleção portuguesa obteve recentemente – títulos da Euro 2016 e Liga das Nações em 2018. Também deixa claro o porquê de técnicos portugueses estarem em alta, como Carlo Queiroz, José Mourinho, Nuno Espírito Santo, Paulo Sousa e mais alguns espalhados pela Inglaterra.

Tudo isso é bastante novo no cenário fossilizado do futebol brasileiro. O sucesso de Jorge Jesus e Abel indica que muita coisa está mudando por aqui e que isso tem o seu lado bom.

A modernização das relações fora de campo é um dos fatores positivos, ainda que passe por vários estresses e esbarre na falta de educação que culminou na demissão de um ex-jornalista em atividade de uma emissora de rádio.

Essa modernização implica um aspecto que irrita muita gente, inclusive parte dos palmeirenses: com muita frequência, Abel Ferreira está certo e acerta. Isso é irritante e incomoda a imprensa esportiva, desacostumada a ser contrariada e com a sinceridade desconcertante de um treinador português coerente e inteligente.

Ninguém esperava que Abel desse tão certo – nem mesmo o presidente Mauricio Galiotte, que o contratou. O português mudou costumes e eliminou maneirismos, por isso, entre tantas outra coisas, é adorado dentro do clube pelos funcionários e jogadores.

Abel Ferreira merece ser criticado, como todos os treinadores e figuras públicas. Ele erra bastante, como todos os técnicos, mas bem menos do que a maioria – por isso ganhou quatro títulos importantíssimos. E tem a humildade de reconhecer os seus erros ou as decisões erradas, sem ter de culpar o médico por ter permitido o jogador lesionado voltar a campo “pelo lado errado”.

A imprensa esportiva ainda não aprendeu a lidar com esse tipo de profissional de forma integral. Ainda tenta entender o português e as suas maneiras polidas, mas firmes, de defender suas posições e desconstruir frágeis discursos críticos com a intenção de espezinhar.

Abel incomoda porque não compactua com esse clima de discurso fechado e compadrio que por muito tempo dominou a imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo. Não chancela as “teses” travestidas de perguntas nas entrevistas coletivas.

Por isso é que o ódio aflora aqui e ali, pois teses são demolidas e jornalistas, poucos, passam vergonha. E não aceitam isso. Mais ainda: não aceitam que as relações fora de campo tenham mudado que os protagonistas tenham rompido esse estado de coisas. A imprensa não é mais protagonista e não gostou dessa mudança.

Deixando de lado os xingamentos infantis de parte dos torcedores contra os jornalistas, o fato é que os excessos de alguns membros da crônica esportiva estão coalhados de preconceitos e ressentimentos. Sempre estiveram, mas nunca tinham sido expostos de maneira tão inapelável. E coube a um estrangeiro descortinar esse lamentável quadro – e sem que precisasse fazer muito esforço.

O legado de Abel Ferreira ainda é impossível de ser medido, mas rondará nossas cabeças por muito tempo. No momento certo, nós o agradeceremos pelos momentos estupendos que nos proporcionou – e ele já nos agradece por termos contribuído por sua extrema evolução como técnico e ser humano.

Resta saber se a imprensa terá a grandeza de reconhecer isso no tempo certo e de forma respeitosa. mais do que isso, se admitirá que suas lições foram importantes para que o respeito finalmente permeie a cobertura jornalística esportiva daqui para adiante.

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1 comentário em “Passagem de Abel ‘tumultua’ o ambiente e estabelece novos parâmetros – ainda bem!

  • Victor
    março 17, 2022
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