Alterações nas regras de futebol para 2026
Por Oiti Cipriani
A reunião da International Football Association Board (IFAB) nos últimos dias de fevereiro de 2026, no País de Gales, determinou algumas modificações com efeito a partir da Copa do Mundo em Julho, no hemisfério norte americano.
Todavia, cada Federação terá o livre arbítrio para implementar antes da Copa do Mundo.
As mudanças da IFAB:
- Cobranças de lateral (*): se a cobrança demorar mais de 5 segundos a partir do início da contagem do árbitro, haverá reversão do lateral. Nesta situação está incluída a simulação do jogador, que pega a bola e depois de algum tempo, chama um parceiro de time para cobrar. Esse tipo de ação também será objeto da reversão. Vamos fazer uma conta de padaria, neste item. Hoje um jogo de futebol tem 15 bolas em campo – cinco em cada linha lateral, duas atrás de cada gol e uma em jogo, ou seja, a cada 21 metros tem um cone com uma bola, portanto, não há motivo para perder tempo em repor a bola em jogo.
- Tiros de meta (*): se a cobrança demorar mais de 5 segundos a partir do início da contagem do árbitro, será marcado escanteio para o time adversário. Nos posts aqui no 3VV na análise de arbitragem dos jogos, já apontamos uma média de demora de reposição de bola em tiros de meta. Em um jogo específico tivemos uma média de reposição de 47 segundos em oito tiros de metas, ou seja, nesta partida foram seis minutos subtraídos do jogo, por pura malandragem dos goleiros e defensores.
- Substituições: jogador terá 10 segundos para sair de campo após a placa que indica a alteração ser erguida. Caso não cumpra, o substituto entrará em campo com 1 minuto de atraso. Esta decisão é muito assertiva. Quando a equipe do substituído está à frente do marcador, este quer sair pelo lado mais longo, no meio do caminho, interrompe a caminhada e tira as caneleiras. Única observação, se o jogador demorar mais que o tempo determinado, deveria vir acompanhada de uma advertência com cartão amarelo. Se fosse substituição tática para tirar um jogador já punido disciplinarmente, seria o segundo amarelo e consequente vermelho e a substituição não seria consumada.
- Atendimento médico: todo jogador que for atendido pela equipe médica precisará ficar pelo menos um minuto fora de campo. Vamos analisar este tempo. Um minuto é muito conservador, muito exíguo, será quase um cosmético para a situação. Um tempo razoável, seria de 3/5 minutos. Se um jogador paralisa um jogo, e pede atendimento médico, até a equipe chegar a examinar e se necessário chamar a maca, levará muito mais tempo que um minuto de paralisação. Com este curto espaço de tempo, vao arrumar um subterfugio para compensar o tempo que ficar com um jogador a menos, tanto na substituição como na paralisação por atendimento médico.
- VAR em escanteios: o árbitro de vídeo poderá interferir em situações rápidas, caso o árbitro marque erroneamente um escanteio ou tiro de meta, sem necessidade de consulta no monitor.
- VAR em segundo cartão amarelo: o árbitro de vídeo poderá interferir em casos de possíveis erros quando um jogador for expulso após receber o segundo cartão amarelo.
Modificações válidas… entretanto…
As modificações em princípio são válidas, com algumas arestas a serem aparadas, mas com o seu desenvolvimento, poderão ser corrigidas. É um grande passo em terminar com as falcatruas e malandragens que o futebol proporciona. Atualmente, aqui no Brasil, raramente tempos 50% de bola rolando. Mas mesmo com estas decisões acertadas, ficam algumas considerações:
a) O VAR poderá intervir nas irritantes simulações de jogadores serem atingidos no rosto? Se tiver esta autonomia, o canastrão será punido? Na maioria destes casos o adversário só encosta no peito ou no ombro, e o atingido rola no chão como se fosse atingido por uma mão com soco inglês, quando foi apenas um mísero esbarrão.
b) Faltou enquadrar o tempo para cobrança de escanteios. Quando o time está ganhando, o cobrador vai lentamente para a cobrança, chegando ao local, desiste e chama um companheiro para fazer, que por sua vez caminha lentamente para o local. Também deveria ter um tempo limite para a cobrança e também reverter, no caso, para tiro de meta e acabar com as palestras dos árbitros em cada escanteio. Todos os jogadores têm plena consciência, que agarrões e empurrões são punidos com Tiro Livre Direto e se for do defensor, pênalti; se for do atacante, falta e sem precisar de um simpósio explicando o básico. (*)
c) Faltas, em qualquer lugar do campo: o time que está à frente do marcador retém a cobrança. Depois de algum tempo, chama outro companheiro, às vezes até o goleiro, que está a 50 metros de distância, para a cobrança.
d) Os árbitros serão orientados a serem rigorosos com estas medidas, ou serão orientados a terem “bom senso” e fazerem vistas grossas, como já fazem para os 8 segundos do goleiro? (*)
e) Os árbitros continuarão, em faltas próximas às áreas, a fazerem papel de bobo da corte? Atualmente, na grande maioria das partidas, os árbitros são contestados, ignorados pelos jogadores quanto ao local da barreira, o que os obriga a contar novamente, marcar novamente a linha da barreira, consumindo enorme tempo de jogo. Em nossos trabalhos de análise de arbitragem dizemos sempre, que os árbitros brasileiros praticam a máxima que “bola parada é a favor do arbitro”. (*)
f) O limite dos oito segundos do goleiro: isto está virando água de batata. Quando o time está ganhando o goleiro, em chutes fáceis, segura a bola nos braços em pé. Ato contínuo se joga ao chão com a bola presa, fica olhando para um lado e para outro, lentamente se levanta e somente a partir daí, o árbitro começa a contagem. Todos que assistem e gostam de futebol, principalmente os árbitros, percebem que o goleiro está fazendo a chamada “cera” e ignora, quando a contagem de oito segundos deveria ser iniciada com a retenção de bola com firmeza. (*)
g) Agora a principal ausência nestas determinações: a punição para a cera dos goleiros. Sempre quando o time está ganhando o jogo. Faz qualquer defesa simples e fica no chão, como um ator canastrão, simulando contusão. Defesa mais exigentes que faz a exaustão em seus treinamentos, sem sentir qualquer dor, mas no jogo, vira um atleta de cristal, que se machuca até com espirro do adversário. Nesta situação tem que se determinar um paradeiro, ou então todas estas situações acima, de agilizar o jogo, serão vazias.
Preocupações e conclusão
Pelo exíguo tempo de reposição de bola para as situações em destaque (*), aparentemente a contagem será a partir do tempo que o jogador ou goleiro estiverem com a bola em condições de ser colocada em jogo.
Mas …. vamos contextualizar estas situações: o goleiro antes de ter a bola para colocar em jogo, vai pegar a toalha, se enxugar, beber água, e a partir daí que vai pegar a bola para cobrança do tiro de meta.
A mesma observação serve para a cobrança de lateral. Até o jogador que vai repor a bola, se o time estiver na frente do marcador, vai se encaminhar em passos de tartaruga, pegar a bola morosamente e a partir daí estar pronto para o início da contagem dos cinco segundos.
E neste caso estamos falando de jogos em nível de série A ou B. E nas séries mais baixas, que muitas vezes não tem nem bolas novas suficientes? E quando o time da casa estiver ganhando? Os gandulas irão sumir com as bolas externas.
No meio do futebol sempre tem alguém que quer ser mais malandro que o adversário. O risco é que estas medidas podem ser ineficazes sem uma atuação mais firme das federações para que os árbitros a cumpram a risca, além de solucionar alguns obstáculos práticos apresentados aqui.
Concluindo, vamos torcer para que as medidas corrijam as distorções que existem atualmente e que diminuem o tempo de bola rolando. Vamos acreditar e cobrar dos órgãos e dirigentes responsáveis para que estas regras sejam melhoradas e contribuam efetivamente para o aumento significativo da bola rolando, e que a situação atual não persista, onde o público que paga altos valores para assistir 90 minutos de futebol, esteja ele no estádio ou na frente de um canal de TV fechada ou streaming, tenha somente 50% de retorno do valor pago.
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