As finanças do Palmeiras e a não contratação de Danilo
Por Vicente Criscio
Após um resultado negativo no Campeonato Brasileiro, na rodada de número 20, o treinador Abel Ferreira na entrevista coletiva voltou a citar os problemas de elenco do time. Este fato coincide com outro fato importante que ocorreu na semana anterior, quando o Botafogo não aceitou uma proposta de 28 milhões de euros (cerca de R$ 160 milhões) do Palmeiras para a contratação do volante Danilo.
Alguns torcedores palmerienses criticaram a decisão da Diretoria em não conseguir trazer o volante de volta. Outros, meu caso inclusive, acharam que o valor já estava acima da capacidade financeira do time.
Como assim? Acima da capacidade financeira?
Pois é! Então vamos aos números do Palmeiras.
Olhando os números de 2026
Para tentar ser objetivo neste post, vou focar em 2026 (e quando relevante, suas principais diferenças para 2025). Em outro momento, se ainda fizer sentido (por uma questão de timing), vamos falar especificamente de 2025.
O quadro abaixo apresenta o Demonstrativo de Resultados de 2026 com as principais contas do DRE, e a comparação com o orçamento da Diretoria Executiva. A fonte é o conjunto de balancetes publicados mensalmente pela SEP em seu site (aqui no 3VV temos os balancetes mensais armazenados para consulta).

Algumas observações.
- Em amarelo, o EBITDA (earnings before interest, taxes, depreciation and amortization, o que na prática quer dizer o resultado operacional antes de receitas e despesas financeiras, antes de impostos e antes de depreciação e amortização) foi calculado por nós porque não foi apresentado nos balancetes disponíveis de 2026.
- Em azul, as “Rendas diversas” contém receitas de venda de direitos econômicos e receitas do contrato da Arena com a WTorre. Esta linha é aberta no balanço de final de ano e no relatório anual (veja mais abaixo) mas não vem aberta nos meses dos balancetes.
Em uma primeira análise o Palmeiras está obtendo nos primeiros cinco meses do ano de 2026 um prejuízo (déficit do exercício) na ordem de R$ 65,9 MM. As razões são simples: as receitas caíram em relação a 2026 no mesmo período (cerca de 32% menos receita). E as despesas aumentaram em mais de 10% (média mensal em 2026 de R$ 103 MM contra a média mensal nos cinco primeiros meses de 2025 de R$ 92,2 MM).
Não precisa ser um especialista em finanças pra perceper que a conta não fecha.
Abaixo o balanço patrimonial em 2026.

Daqui a pouco voltaremos a ele, principalmente nas linhas em amarelo.
Realizado vs Orçado em 2026
O orçamento não está sendo cumprido. Eu particularmente, sempre achei o orçamento da SE Palmeiras uma peça de ficção administrativa. Por vários motivos que agora não importam mais. Mas dado que a Diretoria Executiva sempre quis mostrar os números positivos do “realizado” versus o “orçado” (em exercícios anteriores) agora vamos fazer a mesma comparação:

Menor receita realizada do que aquela orçada; maior despesa… mas isso nós já sabíamos.
Principais indicadores do resultado de 2025 vs 2024 …
Agora vamos dar um passo pra trás na nossa análise e olhar 2025.

Em azul dois destaques:
1. as receitas das vendas dos direitos econômicos: em 2025 o Palmeiras chegou a R$ 602 MM com essa receita, resultado da venda de Estêvão e tantos outros garotos da base.
2. as receitas de premiações: essas receitas estão associadas aos prêmios recebidos por desempenho em campeonatos. Note que em 2025 jogamos o Mundial nos USA. E tivemos uma receita variável por avançarmos de fase. Esse valor foi de R$ 318,9 MM.
Estas receitas ajudaram a compor a receita de R$ 1.628 MM no ano. Receitas extraordinárias (ou seja, não recorrentes) que permitiram o superávit recorde de R$ 292,4 MM e um ebitda igualmente impressionante de R$ 681,3 MM (também em azul).
E esse resultado foi obtido mesmo o Palmeiras tendo uma despesa operacional de R$ 1.246 MM no mesmo ano, 34,4% acima de 2024. Em amortização de direitos de jogadores o crescimento foi de 112% (em laranja no quadro acima). Voltaremos a falar sobre isso.
… e indicadores contábeis

A geração livre de caixa em 2025 foi de R$ 80 MM. Impressionante… parabéns aos envolvidos!
Entretanto… o caixa em 31/12/2025 era de R$ 118 MM. Em maio, chegou a R$ 37 MM. A operação deteriorou o caixa em 2026…. praticamente os mesmos 80 milhões gerados em 2025 foram embora em cinco meses de 2026.
Resumo: a conta chegou em 2026, e a causa é estrutural!
Como vimos acima, as despesas não reduziram em 2026 versus 2025. Ao contrário: aumentaram.
Mas as receitas caíram. O que era esperado. Não temos outro Estêvão pra vender. E não temos outro mundial pra participar.
Em 2025 tivemos mais de R$ 800 MM em contratações (Paulinho e Vitor Roque, por exemplo). Em 2026 as contratações são mais pontuais. Apenas John Árias e Barboza.
Em resumo tivemos dois grandes estressores no nosso resultado em 2026, o que está impedindo grandes contratações:
- A receita não veio. Receita acumulada de R$ 395,3 MM contra despesas operacionais de R$ 516,9 MM. Déficit operacional de R$ 121,6 MM e déficit do exercício de R$ 65,9 MM. O EBITDA acumulado é positivo em R$ 59,8 MM, margem de 15,1% contra 41,8% em 2025. A causa é estrutural, não de descontrole de custos: a receita de venda de atletas nos cinco meses foi baixa (estimamos as vendas em R$ ~70 MM e ainda não recebidas integralmente) e as premiações somaram apenas R$ 16,3 MM — as duas linhas que responderam por 56,6% da receita de 2025. Do lado da despesa, o run-rate anualizado é de R$ 1.240,5 MM, praticamente idêntico aos R$ 1.246,4 MM de 2025. A amortização de jogadores anualizada em R$ 305,8 MM (+34% sobre 2025), consequência inevitável do intangível que cresceu 181% no ano anterior. Ou seja, era sabido que a única receita possível nesse ano era da venda de jogadores. Talvez alguém contou com a Copa do Mundo para alavancar atletas….
- Deterioração rápida do caixa em cinco meses. No mundo da boa gestão, “caixa is the king“, ou seja, o caixa é o rei. A gestão palmeirense (leia-se, Leila Pereira) sempre teve uma preocupação com o caixa e a austeridade de não gastar mais do que ganha. E isso é de se elogiar. Mas alguém errou na mão. Estimou receitas para 2026 que não estão ocorrendo, e sem receitas e sem capacidade de reduzir despesas, o caixa caiu 68,6% (R$ 118,4 MM para R$ 37,2 MM), e a dívida líquida subiu 30,1% (R$ 421,2 MM para R$ 547,8 MM).
Seguramente essa análise carece de detalhes que só quem está dentro da gestão tem acesso e poderia complementar (ou contestar). Mas fica evidente olhando esses números que em apenas cinco meses de 2026 o clube já consumiu R$ 81 MM de caixa, e voltou a antecipar receita futura (+R$ 47,6 MM, com o curto prazo subindo 52,7%). Aliás, o aumento da antecipação de receitas – que na prática é uma espécie de empréstimo – também preocupa e será analisada em breve.
Se o ano de 2025 foi muito importante do ponto de vista econômico e financeiro (apesar do fraco desempenho esportivo) para o Palmeiras, porque permitiu uma desalavancagem (redução da relação dívida sobre receita) real e bem direcionada, 2026 está indo na direção oposta. E este é o principal motivo que impediu a compra dos direitos econômicos de Danilo.
O equilíbrio financeiro do exercício de 2026 depende de vendas de atletas no segundo semestre e/ou do sucesso do time de Abel Ferreira nas campanhas em Copas (especificamente a Copa do Brasil, que dá a maior premiação dentre todas em disputa). Sem esses eventos, 2026 fechará em déficit e com o equilíbrio de caixa novamente dependente de antecipação de contratos — desfazendo todo o ganho econômico financeiro realizado em 2025.
Sem voltar ao equilíbrio financeiro, tanto o discurso da boa gestão quanto o legado de Leila Pereira, que entrará em seu último ano de mandato em 2027, poderão ser seriamente comprometidos.
Saudações Alviverdes!
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